Fenomenologia em R. Steiner, H. Corbin e R. Abellio (por Daniel Placido)
Enquanto
alguns autores esotéricos no século XX procuraram contrapor de forma
irremediável Tradição esotérica e ciência/filosofia modernas, outros pensadores
trilharam um caminho de conciliação e diálogo entre ambas as áreas de
conhecimento. Entre eles, abordarei três filósofos distintos, que, todavia,
estiverem intimamente relacionados à moderna fenomenologia: R. Steiner, R. Abellio
e H. Corbin.
A
fenomenologia foi criada no começo do século XX por E. Husserl (1859-1938) em um contexto em que o positivismo lógico e o fisicalismo eram influentes na filosofia e nas
ciências. Husserl, a partir do conceito de intencionalidade, considerou que
toda consciência é consciência de algo, ou seja, está direcionada a um objeto
que, por sua vez, apresenta sentido para ser captado por ela, em uma unidade
indissolúvel. Seria assim a fenomenologia um método de captar e interpretar o
sentido ou a essência das coisas tais como se mostram à consciência, ou seja, uma
ciência eidética baseada na intuição. E que logo se voltaria para o “mundo da
vida”, desprezado pelas correntes neopositivistas, contrapondo-se à fragmentação
da cultura e do homem modernos.
Rudolf Steiner Raymond Abellio Henry Corbin |
Não
por acaso, disse Steiner sobre Husserl em uma conferência de maio de 1920, como
uma demonstração de estar antenado com as novas correntes filosóficas:
Então,
é claro, há a direção de Husserl, mas não é dada muita consideração. Minha
sensação é que ele é um discípulo de Franz Brentano. Em Franz Brentano, o fato
de que ele é um aristotélico e um tomista aguçados é evidente em todos os
lugares, um bom e completo conhecedor do tomismo, de modo que parte do
aristotelismo e do tomismo foi transferida para Husserl. Claro, um filósofo
moderno como Husserl não pode admitir isso prontamente, mas pode ser visto em
sua psicologia e em tudo que vem à tona nele (GA 73).
Relevante
a forma como Steiner associa acima Husserl à linhagem aristotélica e tomista
através de Brentano, indício de como a fenomenologia pode ser considerada sob
certo aspecto a continuação moderna de uma tradição filosófica mais antiga.
Agora,
como demonstração da proximidade da perspectiva de Steiner da perspectiva da fenomenologia
husserliana, cito este trecho de um dos primeiros livros dele, numa passagem em
que fala de Mestre Eckhart:
Desse
modo, a percepção sensorial não me mostra o Ser Essencial mais profundo das
coisas; muito mais ela me separa desse Ser Essencial. Porém a apreensão
espiritual ou ideal me liga novamente com esse Ser Essencial. Essa apreensão me
mostra que, no seu interior, as coisas consistem precisamente do mesmo Ser
espiritual de que eu mesmo consisto. A fronteira entre mim e o mundo exterior é
derrubada pela apreensão espiritual do mundo. Eu sou separado do mundo exterior
na medida em que eu sou uma coisa sensorial entre coisas sensoriais. Meu olho e
as cores são duas entidades distintas. Meu cérebro e as plantas são duas
coisas. Porém o conteúdo ideal da planta e das cores, juntamente com o conteúdo
ideal do meu cérebro e do meu olho, fazem parte de uma entidade ideal unitária.
(GA 7)
Aqui Steiner supera a dualidade entre realismo e idealismo, percepção e ideia, objeto e sujeito, com a pressuposição de uma unidade originária entre ambos e só apreensível a partir de uma espécie de suspensão do juízo e de uma intencionalidade que amarra de saída ambos os polos do conhecimento.
Já
Henry Corbin (1903-1978), a par das tradições ocidentais e orientais, estudou a
fenomenologia de Husserl e sobretudo a de Heidegger, e foi seu primeiro
tradutor do alemão para o francês. Através de Heidegger, Corbin (1976) chegou à
hermenêutica de uma forma peculiar, como diz em uma entrevista famosa a Phillipe
Nemo:
Em
primeiro lugar, eu diria, há a ideia de hermenêutica, que aparece entre as
primeiras páginas de “Sein und Zeit” [“Ser e Tempo”]. O grande mérito de
Heidegger permanecerá em ter centralizado o ato de filosofar na própria
hermenêutica... É a arte ou técnica de
“Entendimento”, como isso foi entendido por Dilthey. Há, de fato, uma ligação
direta entre o “Verstehen” como hermenêutico na “Filosofia Abrangente” de
Dilthey e o “Analítico”, a ideia de hermenêutica que encontramos em Heidegger.
Contudo,
Henry Corbin (1976), partindo de Heidegger, conectou a concepção de
hermenêutica ao universo da hermenêutica religiosa e esotérica, tanto através
da tradição da cristã e romântica (Schleirmacher, von Baader, Swedenborg)
quanto através da hermenêutica xiita do Livro Sagrado:
Desde
o início, a hermenêutica praticada nas Religiões do Livro põe em jogo os mesmos
temas e vocabulário familiares à fenomenologia. O que fiquei encantado em
redescobrir em Heidegger foi essencialmente a filiação da própria hermenêutica
passando pelo teólogo Schleiermacher, e se eu reivindico a fenomenologia, é
porque a hermenêutica filosófica é essencialmente a chave que abre o
significado oculto (etimologicamente o esotérico) subjacente à declaração
exotérica. Como tal, não fiz nada mais do que tentar aprofundar esse
entendimento, primeiro no vasto domínio inexplorado da gnose islâmica xiita e,
depois, nos domínios vizinhos da gnose cristã e judaica. Inevitavelmente,
porque por um lado o conceito de hermenêutica tinha um sabor heideggeriano, e
porque por outro lado minhas primeiras publicações diziam respeito ao grande
filósofo iraniano Suhravardî, certos historiadores teimosamente mantiveram suas
“insinuações virtuosas” de que eu havia “misturado” (sic) Heidegger com
Suhravardî. Mas fazer uso de uma chave para abrir uma fechadura não é de forma
alguma a mesma coisa que confundir a chave com a fechadura. Não era nem mesmo
uma questão de usar Heidegger como chave, mas sim de fazer uso da mesma chave
que ele próprio havia feito uso, e que estava à disposição de todos.
Aqui,
indo além de Heidegger, Corbin estabeleceu uma aproximação entre fenomenologia
e gnose que lhe permitia constituir uma hermenêutica espiritual capaz de
acessar os outros níveis de realidade, e de fundamentar uma fenomenologia dos
atos visionários da consciência, tal como aparece à consciência do gnóstico.
Também na direção de uma fenomenologia da gnose, Raymond Abellio (1907-1986) foi longe ao considerar que Husserl, por um outro caminho e sem ser religioso, chegou no mesmo lugar que os místicos das tradições:
...onde ocorre esta mutação necessária da consciência que Mestre Eckhart nomeia “o nascimento do Filho em nós”. Situação idêntica àquela que ocorre com a aparição do Eu transcendental de Husserl ou do homem interior de São Paulo, do Sol dos vedantinos, do Samadhi dos zen budistas, diante da qual toda distinção escolar perde suas armas. (1989, p. 133).
Abellio foi um filósofo com formação na área de exatas que estudou a fenomenologia de Husserl, a qual considerava superior à de Heidegger e a base de uma revolução intelectual subestimada (ABELLIO, 1977). Em busca de uma ponte entre filosofia e Tradição, Abellio (1989: 35) considerava que a redução fenomenológica husserliana, ao suspender todo juízo sobre o mundo, colocando-o entre parênteses, levava à experiência da realidade através do Eu transcendental que transfigurava o mundo, e esse era o fim e sentido da Gnose.
Abellio (1977) via também nesse diálogo entre filosofia e esoterismo uma evolução, pois, a seu ver, a Tradição do passado foi apresentada à humanidade de forma mítica ou inconsciente, e necessitava agora de uma linguagem filosófica transparente para realmente tornar-se consciente, ou seja, uma nova gnose.
Como
conclusão, vimos neste pequeno texto como a fenomenologia foi relevante para
nutrir o pensamento de autores esotéricos destacados, e o assunto merece, sem
dúvida, um aprofundamento futuro da parte dos pesquisadores interessados nas relações
entre filosofia e esoterismo.
ABELLIO.
Génese e Transfiguração. Lisboa: Conferência na Biblioteca Nacional, maio de
1977.
CORBIN,
Henry. From Heidegger to Suhrawardi: Interview with Philip Nemo,
Radio France-Culture, 1976. Tradução disponível In: https://www.amiscorbin.com/en/biography/from-heidegger-to-suhravardi/
CROMBERG,
Monica Udler. A individuação espiritual: Henry Corbin e a perspectiva heideggeriana. SP: Humanitas,
Fapesp, 2018.
HUSSERL,
Edmund. Ideias para uma fenomenologia pura e para uma filosofia fenomenológica.
Aparecida: Idéias & Letras, 2006.
STEINER,
Rudolf. Scientific Disciplines and Anthroposophy: Closing Words Following Paula
Matthes' Lecture “What Can Philosophy Still Give to People Today?”11 May 1920,
Dornach (GA 73).
STEINER,
Rudolf. A Filosofia Mística nos Séculos XIII a XVII. SP: Antroposófica, 2011.
(GA 7)
WELBURN,
Andrew. Rudolf Steiner e a crise do pensamento moderno. SP: Madras, 2005.
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