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Poetas platônicos III: Ralph W. Emerson (por Daniel Placido)

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  O poeta e filósofo estadunidense Ralph Waldo Emerson citou Platão abundantemente ao longo de sua obra: nas Obras Completas , "Platão" ou o "platonismo" são mencionados mais de 300 vezes, enquanto seus Diários pessoais contêm mais de 250 referências [1].  Em uma eloquente passagem de Homens Representativos , Emerson apresenta Platão simultaneamente como o maior filósofo e o maior místico do Ocidente: (...) Os seus pensamentos contêm a cultura das nações; as suas ideias constituem a pedra angular das escolas; e os seus propósitos são a fonte das literaturas... É de Platão que sai tudo o que se escreve e discute ainda entre os homens de pensamento. Ele faz um grande destroço nas nossas originalidades. Bíblia dos sábios desde há vinte e dois séculos... Platão é a filosofia, e a filosofia é Platão — ao mesmo tempo a glória e a vergonha da humanidade, visto que nem saxão nem romano souberam acrescentar alguma ideia às suas categorias... Grandes homens a Natureza...

O mundo como espetáculo (por Daniel R. Plácido)

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Neste texto, comparamos três autores de tradições filosóficas distintas, o estoicismo, o neoplatonismo e o advaita, que partem de uma mesma intuição  -- a vida como representação ou espetáculo --, mas chegam a conclusões metafísicas e existenciais assaz diferentes Epicteto, filósofo estoico da Antiguidade, afirma no "Manual": “ Lembra que és um ator num drama no qual o personagem que desempenhas é o preferido pelo dramaturgo: se um personagem medíocre, será um personagem medíocre; se um grande personagem, será um grande personagem; se quiser que teu papel seja o de um mendigo, ainda assim trata de interpretá-lo com talento; o mesmo se o personagem for um aleijado, um funcionário do Estado, um indivíduo particular comum. Com efeito, está em tuas mãos desempenhar bem o personagem, mas cabe a outra pessoa escolher o teu papel.” Em Epicteto, a metáfora do teatro possui um sentido ético rigoroso, apoiado em uma visão metafísica do mundo como ordem racional (logos). Não escolhemos ...

A voz do Sinai (por Daniel Placido)

Escrevi esta mistura de conto e poesia há alguns anos .   Anos contínuos de estudo e fáustica elucubração, consultei os manuscritos de Hermes, Pseudo-Demócrito, Paracelso, Saint-Germain e outros filósofos do fogo. Quando a noite cai na mansão da alma, à penumbra um trabalho secreto desenrola-se no cerne de um gabinete excelso, enquanto as cores reluzentes no Forno alquímico mudam com calma; não obstante a Obra ter sido realizada com persistência e zelo, sem a graça divina tudo vira um intrincado novelo ou uma miragem, e declina em mais um trauma e erro retumbante. Estudei com afinco os livros das grandes tradições de sabedoria, sobretudo Pentateuco, Avesta, Alcorão, Sutras, Vedas, Bhagavad Gita, Upanisads, Eddas, até citá-los de memória com alegria. Todavia, não tinha a chave para abrir os portões dos seus mistérios, tampouco encontrei um fio de Ariadne no labirinto da miríade de sentidos, os quais permanecem cerrados, a não ser para alguém como o rabi Akiva, que, com um sorriso, p...

Ocidente, Oriente e platonismo (por Daniel Plácido)

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Diante da progressiva perda do elemento interior na tradição ocidental, é compreensível que muitos místicos do Ocidente — dos teosofistas e perenialistas aos movimentos da Nova Era — tenham proposto uma franca guinada oriental, na medida em que tradições do Oriente como o budismo, o hinduísmo, o sufismo e outras permaneceram vivas e, até certo ponto, acessíveis aos ocidentais. Entretanto, essa opção parece repousar sobre equívocos sutis. Em primeiro lugar, o Oriente sempre esteve próximo da tradição ocidental, sobretudo por intermédio do platonismo, que, desde o próprio Platão, se vinculou aos mistérios egípcios e persas, além do orfismo e do dionisismo, de raízes orientais. Posteriormente, o platonismo migrou de Atenas para Alexandria e outros centros do Oriente antigo, e os neoplatônicos acrescentaram a essas referências orientais a teurgia e mesmo alusões ao hinduísmo, que interessou a Plotino enquanto Porfírio e Proclo o chamaram de "teosofia". Embora o hegemonismo cristã...

Excerto de Marsilio Ficino - Tradução

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 De Christiana Religione (1473) - Preâmbulo  "A sabedoria eterna de Deus determinou que os mistérios divinos, ao menos nos primórdios da religião, fossem tratados somente por aqueles que são amantes da verdadeira sabedoria. Por isso, sucedeu que, entre os antigos, os mesmos homens investigavam as causas das coisas e, diligentemente, ofereciam sacrifícios à causa suprema das próprias coisas; e esses mesmos eram, entre todas as nações, ao mesmo tempo filósofos e sacerdotes. E isso de modo algum era inadequado. Pois, uma vez que a alma — como concorda o nosso Platão — só pode alçar voo de retorno à pátria e ao Pai celestes por meio de duas asas, a saber, o intelecto e a vontade, e que o filósofo se apoia sobretudo no intelecto, enquanto o sacerdote se apoia na vontade; e uma vez que o intelecto ilumina a vontade, enquanto a vontade inflama o intelecto, segue-se que aqueles que, pela inteligência, primeiro descobriram o divino (quer o tenham encontrado por si mesmos, quer a ele te...

Mística Ocidental e Mística Oriental (Por Daniel R. Placido)

Gusdorf, em seu monumental  Tratado de Metafísica (SP: Cia Editora Nacional, 1960), generaliza suas conclusões a toda metafísica — irmã da mística — sustentando que, em ambas, a possibilidade de conhecimento e experiência do Absoluto implicaria a negação do homem concreto, empírico e histórico, como se este se dissolvesse e perdesse sua humanidade e sua historicidade. Que um filósofo de orientação anti-mística critique a metafísica e a mística é perfeitamente compreensível, embora isso não o livre de equívocos. Por sua vez, um autor de vocação mística, como Nikolai Berdiaev, em seu texto de 1912 De las distintas místicas , propõe uma convergência interessante entre Plotino e a mística indiana — comparação retomada por diversos estudiosos contemporâneos. Berdiaev observa que a “mística indiana” (referindo-se, ao que tudo indica, ao Yoga ou ao Vedānta) tende a negar o homem concreto, o eu pessoal e o mundo plural, rejeitando inclusive o Deus pessoal, pois opera em um horizonte apof...

Três entrevistas sobre Esoterismo

 Compartilho aqui o link de três entrevistas de que participei e que são relacionadas ao Esoterismo. 1- Entrevista com Eduardo Guerreiro Losso, sobre literatura e esoterismo: https://revistaursula.com.br/cultura/eduardo-guerreiro-losso-mistica-literatura-politica-e-religiao/ 2- Entrevista com Francisco G. Bazán, sobre gnosticismo, perenialismo e afins: https://revistaursula.com.br/filosofia/nas-origens-do-cristianismo-os-gnosticos-entrevista-com-francisco-garcia-bazan/ 3- Entrevista com Arthur Versluis, sobre gnosticismo, platonismo, filosofia perene e afins: https://revistaursula.com.br/ciencia/arthur-versluis-a-gnose-entremeada-na-cultura-atual-e-seus-horizontes/