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Ocidente, Oriente e platonismo (por Daniel Plácido)

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Diante da progressiva perda do elemento interior na tradição ocidental, é compreensível que muitos místicos do Ocidente — dos teosofistas e perenialistas aos movimentos da Nova Era — tenham proposto uma franca guinada oriental, na medida em que tradições do Oriente como o budismo, o hinduísmo, o sufismo e outras permaneceram vivas e, até certo ponto, acessíveis aos ocidentais. Entretanto, essa opção parece repousar sobre equívocos sutis. Em primeiro lugar, o Oriente sempre esteve próximo da tradição ocidental, sobretudo por intermédio do platonismo, que, desde o próprio Platão, se vinculou aos mistérios egípcios e persas, além do orfismo e do dionisismo, de raízes orientais. Posteriormente, o platonismo migrou de Atenas para Alexandria e outros centros do Oriente antigo, e os neoplatônicos acrescentaram a essas referências orientais a teurgia e mesmo alusões ao hinduísmo, que interessou a Plotino enquanto Porfírio e Proclo o chamaram de "teosofia". Embora o hegemonismo cristã...

Excerto de Marsilio Ficino - Tradução

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 De Christiana Religione (1473) - Preâmbulo  "A sabedoria eterna de Deus determinou que os mistérios divinos, ao menos nos primórdios da religião, fossem tratados somente por aqueles que são amantes da verdadeira sabedoria. Por isso, sucedeu que, entre os antigos, os mesmos homens investigavam as causas das coisas e, diligentemente, ofereciam sacrifícios à causa suprema das próprias coisas; e esses mesmos eram, entre todas as nações, ao mesmo tempo filósofos e sacerdotes. E isso de modo algum era inadequado. Pois, uma vez que a alma — como concorda o nosso Platão — só pode alçar voo de retorno à pátria e ao Pai celestes por meio de duas asas, a saber, o intelecto e a vontade, e que o filósofo se apoia sobretudo no intelecto, enquanto o sacerdote se apoia na vontade; e uma vez que o intelecto ilumina a vontade, enquanto a vontade inflama o intelecto, segue-se que aqueles que, pela inteligência, primeiro descobriram o divino (quer o tenham encontrado por si mesmos, quer a ele te...

Mística Ocidental e Mística Oriental (Por Daniel R. Placido)

Gusdorf, em seu monumental  Tratado de Metafísica (SP: Cia Editora Nacional, 1960), generaliza suas conclusões a toda metafísica — irmã da mística — sustentando que, em ambas, a possibilidade de conhecimento e experiência do Absoluto implicaria a negação do homem concreto, empírico e histórico, como se este se dissolvesse e perdesse sua humanidade e sua historicidade. Que um filósofo de orientação anti-mística critique a metafísica e a mística é perfeitamente compreensível, embora isso não o livre de equívocos. Por sua vez, um autor de vocação mística, como Nikolai Berdiaev, em seu texto de 1912 De las distintas místicas , propõe uma convergência interessante entre Plotino e a mística indiana — comparação retomada por diversos estudiosos contemporâneos. Berdiaev observa que a “mística indiana” (referindo-se, ao que tudo indica, ao Yoga ou ao Vedānta) tende a negar o homem concreto, o eu pessoal e o mundo plural, rejeitando inclusive o Deus pessoal, pois opera em um horizonte apof...

Três entrevistas sobre Esoterismo

 Compartilho aqui o link de três entrevistas de que participei e que são relacionadas ao Esoterismo. 1- Entrevista com Eduardo Guerreiro Losso, sobre literatura e esoterismo: https://revistaursula.com.br/cultura/eduardo-guerreiro-losso-mistica-literatura-politica-e-religiao/ 2- Entrevista com Francisco G. Bazán, sobre gnosticismo, perenialismo e afins: https://revistaursula.com.br/filosofia/nas-origens-do-cristianismo-os-gnosticos-entrevista-com-francisco-garcia-bazan/ 3- Entrevista com Arthur Versluis, sobre gnosticismo, platonismo, filosofia perene e afins: https://revistaursula.com.br/ciencia/arthur-versluis-a-gnose-entremeada-na-cultura-atual-e-seus-horizontes/

Zoroastro e o zoroastrismo (por Daniel Placido)

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  Quem foi Zoroastro? E o que é o Zoroastrismo? Zaratustra (conhecido em grego como Zoroastro ) foi um sacerdote e reformador religioso do antigo Irã, que teria vivido entre 1500 e 1200 AEC, embora algumas estimativas o situem entre 1000 e 600 AEC. Segundo a tradição, enquanto se banhava em um rio, Zoroastro teve uma visão de uma entidade angélica que se apresentou como emissária de Ahura Mazda, o Senhor Supremo. Essa entidade o levou à presença do Ser Supremo, que lhe revelou a verdade, marcando o início de sua missão profética. O zoroastrismo (às vezes chamado de mazdeísmo) é uma religião que combina elementos do monoteísmo com um dualismo teológico. Ahura Mazda (também chamado de Ohrmazd) é o Senhor Supremo e Sábio, criador da distinção primordial entre asha (verdade, ordem cósmica) e druj (mentira, caos). Dele teriam nascido dois espíritos gêmeos, cada um fazendo uma escolha: Spenta Mainyu (Espírito Benfazejo) optou pelos bons pensamentos, boas palavras e boas ações; e An...

O que é o sufismo? (por Daniel Placido)

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  Toda religião tradicional tem uma dimensão interior ou mística, assim como toda letra tem seu espírito. No caso do Islã, ela é conhecida, especialmente entre os sunitas, como sufismo (tasawwuf). Esse aspecto interior da religião islâmica teria sido revelado pelo profeta Muhammad a seus discípulos mais próximos ou companheiros, e assim sucessivamente. O profeta Muhammad é considerado, não por acaso, o modelo do Homem Perfeito para sufis. O sufismo não tenciona contradizer a sharia (lei islâmica) nem a teologia, mas complementar e aprofundar aspectos delas. Os sufis acreditam no que todo muçulmano verdadeiro acredita e seguem rigorosamente as normas práticas da religião, encarando-as não só pelo seu aspecto externo, mas também pelo aspecto interno. Por exemplo, o sufi Ibn ‘Arabî disse que cada prostração da oração islâmica está associada a um reino da existência (mineral, vegetal, animal). Eles praticam o que todo muçulmano pratica, assim como fazem orações, meditações, jejuns e ou...

Roger Garaudy e o Islã (por Daniel Placido)

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Roger Garaudy foi um dos maiores intelectuais do século XX. Inicialmente cristão, aderiu ao Partido Comunista e à Resistência Francesa  contra a ocupação nazista. Foi parlamentar, e depois tornou-se, especialmente entre os anos 1950-60, o principal ideólogo marxista do Partido Comunista Francês, ainda que rompendo com a dogmática estalinista. Ao mesmo tempo, propunha um diálogo entre cristãos e marxistas. Nos anos 1970 foi excluído do Partido Comunista devido à heterodoxia de suas posições ideológicas. Em 1982 Garaudy reverteu-se ao Islã, de forma surpreendente. Em sua autobiografia “Minha Jornada Solitária pelo Século” (1996, original de 1989) o assunto da reversão é, naturalmente, abordado. Particularmente em uma entrevista anexa ao livro (pp. 281-289), Garaudy considera que os motivos que o atraíram ao Islã foram basicamente dois.  O primeiro é o fato de que o Islã é, a seu ver, uma religião essencialmente ecumênica, pois não se coloca como uma religião nova, e sim como a c...