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Sócrates, Nasrudin e uma dose de ironia (Daniel Placido)

 Na época da graduação em Filosofia, lembro-me de um certo desconforto durante uma aula. Um professor afirmou, de forma categórica, que filosofia e religião possuíam naturezas opostas e inconciliáveis. Simples assim. Levantei a mão e, educadamente, observei que uma afirmação tão genérica não parecia se aplicar a autores como Plotino e Santo Agostinho. Para minha surpresa, a resposta do professor veio em tom irônico, quase como um argumento de autoridade: Plotino, segundo ele, considerava o Uno apenas uma hipótese teórica, enquanto Agostinho não passava de um sujeito carola. Fiquei em silêncio, mas, depois daquele episódio, minha estima pelo professor diminuiu bastante... Algum tempo depois, cursei outra disciplina, obrigatória, com o mesmo docente. Curiosamente, durante uma das aulas, eu pensava de maneira um tanto aleatória em Nasrudin, o sábio irreverente da tradição islâmica, geralmente associado ao sufismo. Para minha surpresa, naquele exato momento o professor mencionou Nasrud...

Meu novo livro: "A Prisca Theologia de Marsilio Ficino"

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  A Editora Madamu lança o livro "A Prisca Theologia de Marsilio Ficino" que se debruça sobre a obra do filósofo, padre, tradutor, astrólogo e mago italiano Marsilio Ficino (1433-1499). Escrita por Daniel Rodrigues Placido, o livro analisa a noção de prisca theologia (teologia antiga) elaborada por Ficino no contexto do Renascimento, e que enuncia a existência de uma sabedoria antiga veiculada pelas diferentes filosofias e religiões, através de uma cadeia de sábios ou teólogos antigos, que estaria, ademais, em pleno acordo com as verdades do cristianismo. Daniel Placido explica que Ficino praticamente abordou e reelaborou o tema da prisca theologia ao longo de toda sua carreira intelectual, desde textos de juventude e do prefácio ao Pimander (Corpus Hermeticum), passando pelas grandes obras De christiana religione e Teologia platônica , até seus últimos textos, cartas, traduções e comentários. O filósofo florentino acreditava que tal teologia antiga “profetizava” o cont...

A Filosofia Perene e suas múltiplas linhagens (por Daniel Placido)

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  As raízes remotas daquilo que, no Renascimento, seria denominado Filosofia Perene (em sentido amplo) encontram-se, sem sombra de dúvida, tanto no neoplatonismo da Antiguidade Tardia quanto na Patrística cristã. O neoplatonismo caracterizou-se por um amplo esforço de síntese entre a herança filosófica helênica e as diversas tradições religiosas e filosóficas orientais, embora amiúde rejeitasse o cristianismo em razão de seu exclusivismo soteriológico. Os Pais da Igreja, por sua vez, empenharam-se em conciliar a novidade da revelação cristã com a filosofia helênica, mas sem abdicar da concepção de que o cristianismo representava também seu ápice e superação. Ademais, a concepção de uma Filosofia Perene não foi estranha ao Oriente, especialmente dentro do mundo islâmico, o qual acolheu durante o Medievo a herança do pensamento filosófico helênico, mesclando-a às tradições endógenas e desenvolvendo-a em função de suas próprias questões. Desse modo, tanto filósofos ocidentais quan...

Limiares: Ártemis, Porfírio e o Nemeton (por Daniel Placido)

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  Na religião grega antiga, a deusa Ártemis ocupava uma posição singular: não pertencia inteiramente ao mundo civilizado da pólis tampouco ao domínio da natureza selvagem, de acordo com Jean-Pierre Vernant (2021). Não por acaso, seus santuários localizavam-se amiúde em bosques, montanhas e fronteiras, lugares distantes onde a ordem humana encontrava as forças indomadas da vida natural. Esses espaços não representavam apenas o intocado e o incivilizado, o totalmente outro, porém uma zona de transição e contato entre cultura e natureza. Como protetora dos animais selvagens, dos caçadores e dos jovens em transição para a vida adulta e dos espaços marginais, Ártemis encarna perfeitamente essa condição liminar, uma dialética de alteridade e semelhança. Essa condição encontra, a nosso ver, um paralelo com a interpretação de Porfírio em O Antro das Ninfas (2022). Para o filósofo neoplatônico, a caverna dedicada às ninfas, encontrada por Ulisses no retorno à  Ítaca ( Odisseia, can...

Poetas platônicos III: Ralph W. Emerson (por Daniel Placido)

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  O poeta e filósofo estadunidense Ralph Waldo Emerson citou Platão abundantemente ao longo de sua obra: nas Obras Completas , "Platão" ou o "platonismo" são mencionados mais de 300 vezes, enquanto seus Diários pessoais contêm mais de 250 referências [1].  Em uma eloquente passagem de Homens Representativos , Emerson apresenta Platão simultaneamente como o maior filósofo e o maior místico do Ocidente: (...) Os seus pensamentos contêm a cultura das nações; as suas ideias constituem a pedra angular das escolas; e os seus propósitos são a fonte das literaturas... É de Platão que sai tudo o que se escreve e discute ainda entre os homens de pensamento. Ele faz um grande destroço nas nossas originalidades. Bíblia dos sábios desde há vinte e dois séculos... Platão é a filosofia, e a filosofia é Platão — ao mesmo tempo a glória e a vergonha da humanidade, visto que nem saxão nem romano souberam acrescentar alguma ideia às suas categorias... Grandes homens a Natureza...

O mundo como espetáculo (por Daniel R. Plácido)

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Neste texto, comparamos três autores de tradições filosóficas distintas, o estoicismo, o neoplatonismo e o advaita, que partem de uma mesma intuição  -- a vida como representação ou espetáculo --, mas chegam a conclusões metafísicas e existenciais assaz diferentes Epicteto, filósofo estoico da Antiguidade, afirma no "Manual": “ Lembra que és um ator num drama no qual o personagem que desempenhas é o preferido pelo dramaturgo: se um personagem medíocre, será um personagem medíocre; se um grande personagem, será um grande personagem; se quiser que teu papel seja o de um mendigo, ainda assim trata de interpretá-lo com talento; o mesmo se o personagem for um aleijado, um funcionário do Estado, um indivíduo particular comum. Com efeito, está em tuas mãos desempenhar bem o personagem, mas cabe a outra pessoa escolher o teu papel.” Em Epicteto, a metáfora do teatro possui um sentido ético rigoroso, apoiado em uma visão metafísica do mundo como ordem racional (logos). Não escolhemos ...

A voz do Sinai (por Daniel Placido)

Escrevi esta mistura de conto e poesia há alguns anos .   Anos contínuos de estudo e fáustica elucubração, consultei os manuscritos de Hermes, Pseudo-Demócrito, Paracelso, Saint-Germain e outros filósofos do fogo. Quando a noite cai na mansão da alma, à penumbra um trabalho secreto desenrola-se no cerne de um gabinete excelso, enquanto as cores reluzentes no Forno alquímico mudam com calma; não obstante a Obra ter sido realizada com persistência e zelo, sem a graça divina tudo vira um intrincado novelo ou uma miragem, e declina em mais um trauma e erro retumbante. Estudei com afinco os livros das grandes tradições de sabedoria, sobretudo Pentateuco, Avesta, Alcorão, Sutras, Vedas, Bhagavad Gita, Upanisads, Eddas, até citá-los de memória com alegria. Todavia, não tinha a chave para abrir os portões dos seus mistérios, tampouco encontrei um fio de Ariadne no labirinto da miríade de sentidos, os quais permanecem cerrados, a não ser para alguém como o rabi Akiva, que, com um sorriso, p...