A voz do Sinai (por Daniel Placido)

Escrevi esta mistura de conto e poesia há alguns anos.
 
Anos contínuos de estudo e fáustica elucubração, consultei os manuscritos de Hermes, Pseudo-Demócrito, Paracelso, Saint-Germain e outros filósofos do fogo. Quando a noite cai na mansão da alma, à penumbra um trabalho secreto desenrola-se no cerne de um gabinete excelso, enquanto as cores reluzentes no Forno alquímico mudam com calma; não obstante a Obra ter sido realizada com persistência e zelo, sem a graça divina tudo vira um intrincado novelo ou uma miragem, e declina em mais um trauma e erro retumbante.

Estudei com afinco os livros das grandes tradições de sabedoria, sobretudo Pentateuco, Avesta, Alcorão, Sutras, Vedas, Bhagavad Gita, Upanisads, Eddas, até citá-los de memória com alegria. Todavia, não tinha a chave para abrir os portões dos seus mistérios, tampouco encontrei um fio de Ariadne no labirinto da miríade de sentidos, os quais permanecem cerrados, a não ser para alguém como o rabi Akiva, que, com um sorriso, permaneceu em paz à entrada e à saída do Paraíso.

Tentei então o caminho da devoção. Ajudei aos necessitados em desapegada ação, doei-lhes bens, além de compreensão e amor; dediquei-me a todos que cruzaram comigo nesta vida, em nome do Senhor tentei aliviar sua dor e curar seu rancor, mas não podia a aflição de minha própria lida mitigar, nem meu coração resguardar em um abrigo. 

Procurei assaz por Buda, sentado em paz à sombra da árvore Bodhi, mas não o encontrei, aqui ou alhures; tentando deixar minha mente serena e muda, apesar dos momentos de solidão e alegria em meditação, recolhido em mim mesmo como um caramujo na praia, ela permaneceu um lago inquieto e sujo, andando eu a esmo, sem guia pelas ilusões de maya ou de algum sarcástico Loki. 

Orei todas as noites para os anjos, pedindo-lhes serenidade na alma e lampejos da verdadeira felicidade, mas eles não desceram do céu em coro para me auxiliar com piedade, tampouco minhas lágrimas atravessaram o Paraíso; no quarto só ouvi do meu choro o barulho triste e rouco, enquanto da cidade lá fora escutava o orgulho, a sirene e o riso.

Experimentei o desespero, desespero, próximo a perder a razão e o apreço à vida. Totalmente perdido, encontrei no caminho um homem velho, com a barba branca e comprida, nobre apesar de coberto sob uma veste rude, que, porém, foi clemente com minha condição deprimente. Ele olhou para mim com olhos serenos e citou o Talmude com esmero: “Uma vez que uma pessoa se torna um deserto... a Torá é dada a ela como um presente.” E apontou para o Sinai.

Segui doravante a via longa e diligente em busca de Adonai. Eu não apenas atravessei o deserto enquanto lugar externo: tornei-me ermo como uma clareira, simples como um haicai, esvaziando minha mente de imaginação, cobiça, medo, ódio e soberba. Mergulhei no Abismo de mim mesmo, onde não há mais ego e nem agitação sobeja.

Tive que livrar-me até de Deus, como disse Mestre Ekchart, virando ateu quanto às obras insanas da minha fantasia terrestre. Destarte retornei ao que eu era antes de ser criado por algum Jeová, Demiurgo ou Zeus, para ver o que em mim havia, à minha face antes dos meus pais terem nascido. Eu não vi ali um anjo alado na sarça ardente, nem ouvi uma Voz aterradora e estridente,  porém encontrei o que era óbvio em demasia quando o ser volta à sua Fonte silente:

“Aquieta-te e saiba que Eu sou Deus”. Eu Sou o que Sou. E isto, isto, sou Eu.   Antes da criação e eternamente, Eu Sou. Até o fim dos tempos e de todos os universos, Eu Sou. Era tão óbvio e evidente: Eu, Eu, Eu, Eu. O que haveria além ou aquém? Somente Eu. Não existe aqui ou lá, este ou aquele, fora ou dentro, pois tudo é Um, eu sou Tudo. Era uma gota temendo sumir no Oceano, mas ele e Eu somos um só. Eu Sou Aquilo! Eu que se expande, expande, circunferência sem fim, translúcido, tranquilo e infinito mar, diamante autotransparente e sem limites, vazio cheio, diáfana concretude, Coração do temporal e do sempiterno, para sempre e eternamente, Eu Sou o que Sou. No Deserto, minha alma extasiada encontrou a Plenitude e na multitude o simples Uno. Feito Nada, agora sou Tudo.

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