Ocidente, Oriente e platonismo (por Daniel Plácido)

Diante da progressiva perda do elemento interior na tradição ocidental, é compreensível que muitos místicos do Ocidente — dos teosofistas e perenialistas aos movimentos da Nova Era — tenham proposto uma franca guinada oriental, na medida em que tradições do Oriente como o budismo, o hinduísmo, o sufismo e outras permaneceram vivas e, até certo ponto, acessíveis aos ocidentais.

Entretanto, essa opção parece repousar sobre equívocos sutis. Em primeiro lugar, o Oriente sempre esteve próximo da tradição ocidental, sobretudo por intermédio do platonismo, que, desde o próprio Platão, se vinculou aos mistérios egípcios e persas, além do orfismo e do dionisismo, de raízes orientais. Posteriormente, o platonismo migrou de Atenas para Alexandria e outros centros do Oriente antigo, e os neoplatônicos acrescentaram a essas referências orientais a teurgia e mesmo alusões ao hinduísmo, que interessou a Plotino enquanto Porfírio e Proclo o chamaram de "teosofia".

Embora o hegemonismo cristão tenha levado ao fechamento da Academia no ocaso da Antiguidade, o platonismo sobreviveu durante a Idade Média em Bizâncio e nas terras distantes do Irã - sincretizado ao Islã, hermetismo e zoroastrismo -, além de ter retornado discretamente a Chartres. Na Renascença, como afirmou Ficino, ele migrou novamente, revigorado, de Bizâncio para Florença. Nesse processo, o Oriente permaneceu presente, em um sincretismo que voltou a unir Platão a Orfeu, Hermes Trismegisto e Zoroastro, sob um pano de fundo cristão.

Dali seguiu para Cambridge, onde enfrentou Descartes — ainda que em vão — e, de modo subterrâneo, sobreviveu aos excessos do racionalismo moderno e suas variantes. Mais tarde, foi o alento de poetas românticos como Shelley, Coleridge e Yeats, e atravessou o oceano para experimentar os ares juvenis da América, onde buscou aproximar-se dos atemporais Vedas e da filosofia da natureza.



Por isso o platonismo constitui a genuína "philosophia perennis" do Ocidente, como sustentaram Kristeller e Versluis, sendo capaz de se conectar praticamente com qualquer tradição, seja ocidental, seja oriental. Assim, voltar-se para o Oriente é legítimo, mas, mesmo nesse gesto, Platão — como observou uma vez Emerson — destroça nossas pretensões de originalidade.

No interregno das luzes metafísicas do Ocidente, ainda refulge algo do platonismo em autores como Husserl, Corbin e Berdiaev. E hoje, em tempos de globalização, ele continua ao alcance de todos aqueles que desejarem retirar os véus de mistério que o encobrem. Como disse Karl Albert:

"...o platonismo continua vivo e se tornou especialmente importante ... na era da globalização. Não é só na Europa que há filosofia, mas também na Ásia, e especialmente na Índia, com a filosofia dos upanixades, e na China, com o taoísmo de Lao-tsé. Nenhuma outra filosofia da Europa se aproximou tanto da ideia de unidade dos upanixades e do Tao te king como a teoria do platonismo. Quanto mais profundamente penetrarmos em nossa própria filosofia, tanto mais entendimento teremos da grande filosofia da Índia e da China, conquistando  a amizade ou o respeito desses povos." (Platonismo, Loyola)

Não existe nada de errôneo em um ocidental contemporâneo voltar-se para o Oriente, mas esse caminho pode ser feito, hoje, a partir e através de uma corrente ocidental, o platonismo, não por acaso, sinônimo de Filosofia Perene.

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