Poetas platônicos III: Ralph W. Emerson (por Daniel Placido)
O poeta e filósofo estadunidense Ralph Waldo Emerson citou Platão abundantemente ao longo de sua obra: nas Obras Completas, "Platão" ou o "platonismo" são mencionados mais de 300 vezes, enquanto seus Diários pessoais contêm mais de 250 referências [1].
Em uma eloquente passagem de Homens
Representativos, Emerson apresenta Platão simultaneamente como o maior
filósofo e o maior místico do Ocidente:
(...)
Os seus pensamentos contêm a cultura das nações; as suas ideias constituem a
pedra angular das escolas; e os seus propósitos são a fonte das literaturas...
É de Platão que sai tudo o que se escreve e discute ainda entre os homens de
pensamento. Ele faz um grande destroço nas nossas originalidades. Bíblia dos
sábios desde há vinte e dois séculos...
Platão é a filosofia, e a filosofia é Platão — ao mesmo tempo a glória e a
vergonha da humanidade, visto que nem saxão nem romano souberam acrescentar
alguma ideia às suas categorias...
Grandes homens a Natureza incessantemente faz surgir da noite para serem os
seus homens — platonistas!...
O misticismo encontra em Platão todos os seus textos. [2]
Ao mesmo tempo, segundo L. P. Wilson [3],
Emerson revela grande universalidade ao assimilar influências diversas, além das do platonismo e neoplatonismo, como o
idealismo alemão, o romantismo inglês, a teosofia de Swedenborg, o
confucionismo e o hinduísmo.
Nesse sentido, mesmo quando Emerson se
refere diretamente às tradições orientais -- especialmente ao hinduísmo --, é
possível perceber um fundo claramente platônico em seu pensamento. A meu ver, um
exemplo disso aparece no poema Maia:
A
ilusão opera impenetrável,
tecendo inúmeras teias.
Suas imagens alegres jamais falham,
aglomerando-se umas sobre as outras, véu sobre véu.
Encantadora que será acreditada
pelo homem sedento de ser enganado.
Ilusões
como os tons da pérola,
ou as cores mutáveis do céu,
ou as fitas de uma dançarina
que realçam sua beleza aos olhos.
A
penugem fria e cinzenta cobre os marmelos,
e as pobres fiandeiras tecem suas teias sobre ela
para compartilhar o sol tão intenso.
Sansão,
magro, aos pés de Dagom,
tateia em busca de colunas tão fortes quanto ele;
quando seus cachos cresceram e se enrolaram,
tateou em busca do eixo do mundo.
Mas a
Natureza assobiou com todos os seus ventos,
fez o que quis e seguiu seu caminho. [4]
Maya, sabidamente, é um conceito central do pensamento
filosófico hindu. O mundo fenomênico, em sua transitoriedade e multiplicidade, é
considerado como uma espécie de ilusão ou encantamento, sob o qual se encontra
Brahman -- idêntico ao Atman -- enquanto unidade absoluta e sem segundo,
reconhecida apenas pelo homem iluminado. Jiva, a alma individual, assim como
Isvara, o Deus pessoal, também são parte de maya, junto com o mundo.
Ora, nesse poema, Emerson igualmente trabalha
temas hindus sob um viés que evoca fortemente o platonismo. O mundo-maya surge
coberto por “ilusões”, “véus” e aparências que enganam os homens,
aproximando-se da distinção platônica entre o mundo sensível e o mundo
inteligível, tal como é mencionada na Alegoria da Caverna (República,
Livro VII). Só o filósofo é capaz de se libertar dos simulacros ou aparências
do mundo sensível e atingir a verdade no mundo inteligível, ao sair para o
mundo de luz além da caverna, do mundo transitório para o mundo eterno e imutável. Claro, para Platão o mundo sensível não é
completamente irreal, tampouco o é no hinduísmo, mas uma realidade menor, uma
sombra ou cópia do real.
O verso sobre o “homem sedento de ser
enganado” recorda também a crítica platônica àqueles que preferem as aparências
à verdade filosófica, como os sofistas. Além disso, a busca pelo “eixo do
mundo” sugere a procura de um princípio absoluto e permanente subjacente ao
caos da aparência.
Não obstante, Emerson não é plenamente
platônico em sentido clássico. Diferentemente de Platão, que tende a situar a
verdadeira realidade acima do mundo natural, Emerson, mais próximo da doutrina swedenborgiana das correspondências, valoriza a Natureza como
uma força viva e espiritual, capaz de manifestar diretamente o absoluto.
De qualquer maneira, se Sohravardî foi
chamado outrora de “imã dos platônicos da Pérsia”, Emerson pode ser chamado,
sem exagero, de o “guru dos platônicos da América”!
Notas
[1]
Emerson the platonist: https://satyagraha.wordpress.com/2013/04/03/emerson-the-platonist/
[2]
In: Homens Representativos. SP: Ediouro, s/d, pp. 31–32.
[3] Cf.
The influence of Vedanta on the Writings of Emerson: a philosophical Inquiry,
Sabindra Raj Bandhari, The Outlook: Journal of English Studies, vol. 12, july
2021, p. 62.
[4] Fonte:
https://www.infoplease.com/primary-sources/poetry/ralph-waldo-emerson/ralph-waldo-emerson-maia . Traduzido com o uso de IA.
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