A Filosofia Perene e suas múltiplas linhagens (por Daniel Placido)

 

As raízes remotas daquilo que, no Renascimento, seria denominado Filosofia Perene (em sentido amplo) encontram-se, sem sombra de dúvida, tanto no neoplatonismo da Antiguidade Tardia quanto na Patrística cristã. O neoplatonismo caracterizou-se por um amplo esforço de síntese entre a herança filosófica helênica e as diversas tradições religiosas e filosóficas orientais, embora amiúde rejeitasse o cristianismo em razão de seu exclusivismo soteriológico. Os Pais da Igreja, por sua vez, empenharam-se em conciliar a novidade da revelação cristã com a filosofia helênica, mas sem abdicar da concepção de que o cristianismo representava também seu ápice e superação.

Ademais, a concepção de uma Filosofia Perene não foi estranha ao Oriente, especialmente dentro do mundo islâmico, o qual acolheu durante o Medievo a herança do pensamento filosófico helênico, mesclando-a às tradições endógenas e desenvolvendo-a em função de suas próprias questões. Desse modo, tanto filósofos ocidentais quanto orientais abordaram o tema da Filosofia Perene, inclusive estabeleceram diversas linhagens de sua transmissão, repletas amiúde de elementos míticos e fantásticos.

Neste texto breve e introdutório, examinaremos algumas destas linhagens, especificamente aquelas formuladas por Sohravardî, Plethon, Ficino, Steuco e Mulla Sadra, com o objetivo de comparar suas semelhanças e diferenças.

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 O nome de Shihab al-Din Yahya Sohravardî (1151-1194) merece atenção especial, pois é, no período medieval, um herdeiro simultâneo da tradição platônica e da tradição persa-islâmica, assim como o formulador de uma linhagem universal da sabedoria divina.

Metafisicamente, seu pensamento teosófico constitui um sincretismo vertiginoso de neoplatonismo, avicenismo e zoroastrismo, sem falar da presença de elementos herméticos e sufis. Já sob uma perspectiva histórico-filosófica, Sohravardî sustentava a existência de uma cadeia de sábios ou "expoentes da Luz", vinculada ao Oriente, entendido como nascente espiritual, que teriam alcançado e transmitido uma sabedoria iluminativa à humanidade.

Naquela que é considerada sua obra máxima, A Filosofia da Iluminação (Hikmat al-Ishraq), Sohravardî inicia a linhagem da sabedoria perene com Hermes Trismegisto, identificado a Idris ou Enoque, considerado o primeiro sábio e pai da filosofia; entre os gregos, destaca-se Platão, ao lado de Pitágoras, Empédocles, Sócrates e Aristóteles; figuras lendárias de uma vertente persa e caldeia como Kayomarth e Zoroastro; mestres sufis  como Dhu al-Nun al-Misri, Sahl al-Tustari, Bayazid al-Bistami e al-Hallaj; e representantes da tradição indiana e chinesa, entre eles o próprio Buda (Suhrawardî, 1999, p. 2-3, p. 107-108).

Em outras obras, Sohravardî complementa que:

Entre os persas, havia um povo que se guiava pela verdade e, por meio dela, agia com justiça. Eram sábios virtuosos, diferentemente dos Magos. Revivemos sua nobre e luminosa sabedoria, testemunhada pelas ideias de Platão e dos sábios que o precederam no livro chamado Hikmat al-Ishrāq. (Kalimāt al-taṣawwuf, 128)

E embora o argumento seja nosso, a doutrina pertence aos antigos babilônios, aos sábios khosravanianos, aos indianos e a todos os antigos do Egito, da Grécia e de outros povos. (Ibidem, 493)

Os virtuosos da Babilônia, da Grécia e de outros lugares declararam ter experimentado essas coisas [místicas]. (al-Mašāri‘ wa-l-muṭāraḥāt, 460) [1]

 

Contudo, ao contrário de outros filósofos islâmicos de elevada estatura, Sohravardî permaneceu desconhecido no Ocidente latino praticamente até o século XX, e, portanto, não pode ser considerado uma fonte direta para o Renascimento. De todo modo, esse último constituiu um período histórico-cultural central para a construção e consolidação da ideia de uma sabedoria primordial comum às diferentes tradições, à luz de um sincretismo filosófico e esotérico que reuniu, no mesmo conjunto, o cristianismo e a cabala judaica com correntes pagãs como o hermetismo, o neoplatonismo, a teurgia e o orfismo.

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Entre os pioneiros desse processo destaca-se Gemistos Plethon (1355 [?]-1452), filósofo bizantino e neopagão que despertou nos intelectuais latinos, durante a Renascença, um renovado interesse por Platão, cuja concordância essencial com Zoroastro defendeu, tomado por ele como o primeiro dos grandes sábios da Antiguidade. Segundo alguns historiadores, seu mestre teria sido um judeu chamado Eliseu, possivelmente familiarizado com a filosofia islâmica e, inclusive, até com corrente iluminacionista derivada de Sohravardî, o que estabeleceria uma conexão realmente insólita.

Possivelmente influenciado por Proclo, no Tratado das Leis Plethon elaborou uma genealogia da sabedoria antiga que se iniciava com Zoroastro, e passava por figuras, ora históricas, ora míticas, como Eumolpo, Licurgo, Curetes, Pitágoras, Platão, Dioniso, Plotino, brâmanes e muitos outros. Plethon não citou diretamente Hermes Trismegisto, e tampouco qualquer elemento ligado à tradição monoteísta judaico-cristã, propondo assim uma versão praticamente pagã da Filosofia Perene.

Na esteira da obra plethoniana, embora a partir de uma perspectiva cristã, encontra-se o filósofo e padre italiano Marsilio Ficino (1433-1499). Ficino desenvolveu expressamente o conceito de prisca theologia, ou seja, o conceito de uma tradição teológica primordial transmitida por sucessivas gerações de sábios ou teólogos.

Na introdução de sua tradução do Corpus Hermeticum, denonimada Pimander, Ficino colocou Hermes Trismegisto como o primeiro teólogo, seguido por Orfeu, Aglaofemo, Pitágoras, Filolau e Platão. Posteriormente, em obras como a Teologia Platônica, por provável influência de Plethon, Zoroastro passa a ocupar a primeira posição, seguido por Hermes, Orfeu, Aglaofemo, Pitágoras e Platão, pois permitia uma conexão clara com o cristianismo e a magia, por exemplo através dos magos do Oriente citados no Evangelho.

Ao longo de suas várias obras, Ficino reelaborou inúmeras vezes essas linhagens, com o intuito de demonstrar a continuidade entre as antigas tradições sapienciais e o cristianismo, seja para legitimar este último como o cume de uma revelação anterior e muito antiga, seja para oferecer um modelo intelectual, em sua época, capaz de reconciliar filosofia e teologia, razão e fé, sabedoria e piedade.

Contudo, o conceito estrito de "Filosofia Perene" foi formulado posteriormente por Agostino Steuco (1497/1498-1548). Bibliotecário da Vaticana e leitor atento de Ficino, Pico della Mirandola e dos textos herméticos, Steuco reinterpretou a questão em termos mais explicitamente teológicos e praticamente apologéticos.

Em sua obra De Perenni Philosophia, Steuco afirma que Filosofia Perene correspondia à ciência divina originalmente revelada a Adão, preservada por Noé após o Dilúvio e transmitida, de diferentes maneiras, aos vários povos da humanidade.

Segundo Steuco, essa sabedoria primordial foi gradualmente obscurecida pelo apego humano às coisas mundanas, cujo dano colateral foram desvios doutrinários e erros filosóficos. Entre esses desvios incluía teorias como a da transmigração das almas e a da eternidade do mundo. Somente com o advento histórico do cristianismo, sustentou Steuco, a Filosofia Perene teria sido restaurada em sua forma original e pura, incluindo as doutrinas corretas acerca da Trindade, da criação do mundo e do destino da alma. Sua formulação é, por conseguinte, significativamente mais apologética e cristocêntrica do que a de Ficino.

Em retorno ao mundo islâmico, mas agora no período moderno, encontramos Mulla Sadra (1572-1641), importante filósofo e teósofo xiita, herdeiro intelectual tanto da filosofia iluminacionista de Sohravardî quanto da metafísica de Ibn Arabî. Embora não exista qualquer vínculo histórico direto entre suas formulações e as de Agostino Steuco, ambos compartilham a convicção de que a verdadeira sabedoria possui uma origem adâmica primordial, anterior às divisões religiosas e culturais da história, como se depreende desta passagem eloquente de Mulla Sadra:

Saibam que a filosofia surgiu primeiramente de Adão, o escolhido de Deus, e de sua progênie, Seth e Hermes, e de Noé, porque o mundo nunca poderá ficar livre de uma pessoa que estabeleça o conhecimento da unidade de Deus e do retorno [a Deus]. O grande Hermes a disseminou [a filosofia] nos climas e nos países e a explicou e beneficiou as pessoas com ela. Ele é o pai dos filósofos e o mais erudito dos conhecedores [...]. Quanto à Roma e à Grécia, a filosofia não é antiga nesses lugares, pois suas ciências originais eram a retórica, a epistolografia e a poesia [...] até que Abraão se tornou um profeta e ensinou a eles a ciência da unidade divina. É mencionado na história que o primeiro a filosofar entre eles [os gregos] foi Tales de Mileto e ele a nomeou filosofia. Ele filosofou primeiro no Egito e depois foi para Mileto quando já era idoso e disseminou sua filosofia. Depois dele, vieram Anaxágoras e Anaxímenes de Mileto. Depois deles surgiram Empédocles, Pitágoras, Sócrates e Platão. (Risāla fī ḥudūth al-ʿālam) [2]

 

Conquanto sem qualquer relação com o cristocentrismo, a formulação de Mulla Sadra parece quase um “meio-termo” entre Steuco e Sohravardî, pois com o primeiro ela concorda que a filosofia ou a sabedoria surgiu diretamente de Adão, através de uma transmissão divina, mas como o segundo, ela reserva um lugar especial a Hermes, como aquele que, no passado, disseminou a filosofia entre os diversos povos e culturas.

Ora, as diferentes -- e por vezes contraditórias -- formulações examinadas demonstram que a Filosofia Perene jamais constituiu uma doutrina homogênea ou uma tradição histórica contínua. Antes, configurou-se como um amplo leque de esforços intelectuais voltados à afirmação de uma unidade fundamental da verdade para além da pluralidade de tradições, culturas e correntes filosóficas.

Como foi visto, Sohravardî identificou essa unidade em uma cadeia de sábios iluminados pertencentes a diferentes civilizações; Plethon, em uma linhagem primordialmente zoroastriana e helênica, alheia ao monoteísmo judaico-cristão; Ficino, em uma sucessão de antigos teólogos pagãos cuja sabedoria encontraria seu ápice no cristianismo; Steuco, em uma revelação primordial transmitida desde Adão, mas plenamente preservada apenas pela Igreja cristã; e Mulla Sadra, em uma tradição profética adâmica anterior à própria filosofia grega.

Apesar dos diferentes pontos de vista e interpretações, o que une autores tão distantes no tempo e no espaço não é, evidentemente, um acordo sobre o conteúdo da sabedoria primordial ou sobre quem a transmitiu, e sim a crença comum de que existe uma verdade metafísica universal presente ao longo da história humana, conquanto expressa de formas múltiplas. Assim, as linhagens da Filosofia Perene funcionam mais como interpretações simbólicas e metafísicas do conhecimento do que como reconstruções históricas rigorosas. Elas representam um esforço contínuo de conciliar unidade e diversidade, razão e revelação, história e espiritualidade, um esforço admirável, em que pese seu ecletismo teórico, que ainda pode ser útil atualmente.

 

Notas

1- Apud SAATCHI, 2025, p. 77, nota. Tradução nossa do espanhol para o português.

2- Apud RIZVI, 2024, pp. 448-449.

 

Bibliografia

CODOÑER, Juan Signes. Jorge Gemistos Pléton. Madrid: Ediciones del Orto, 1998

FICINO, Marsilio. Teologia platonica. A cura di Michele Schiavone, Volumes 1 e 2. Bolonha: Zanichelli, 1965.

GRANADA, Miguel A. Jorge Gemisto Pletón y la eternidade del mundo (La polêmica contra Aristóteles y el cristianismo). ÉNDOXA: Series Filosóficas, n.  34, 2014, pp. 341-376. UNED, Madrid.

______________. Agostino Steuco y la Perennis Philosophia. Daimon Revista Internacional De Filosofia, (N. 8), pp. 23-28, 1994

LO PRESTI, Eleonora. La filosofia nel suo sviluppo storico: la prospettiva storiografica di Marsilio Ficino e l’influenza dei dotti bizantini Giorgio Gemisto Pletone e Giovanni Basilio Bessarione. Bolonha: Alma Mater Studiorum Università di Bologna, Dottorato di ricerca in Filosofia, 19 Ciclo, 2007 (tese de doutorado).

PLÉTHON, Georges Gemistos. Traité de Lois. Paris: Librarie de Firmin Didot Frères, fils et cia, 1858. Disponivel In: http://remacle.org/bloodwolf/philosophes/plethon/table.htm

PLETHON, George Gemistos. Commentary on the Magical Oracles of the Magi of Zoroaster, tradução de Thomas Stanley modernizada por John Opsopaus, 2021. Disponível In: http://opsopaus.com/OM/BA/PCOMO.html

RIZVI, Sajjad. Mulla Sadra, In: Estudos em história da filosofia árabe e islâmica, Tadeu M. Verza, Meline C. Sousa (orgs.). Belo Horizonte: PPGFIL-UFMG, 2024, pp. 431-491.

SUHRAWARDÎ, Sihâb al-Dîn Yahya. The Philosophy of Ilumination, John Walbridge & Hossein Ziai (orgs.). Provo/Utah: Brigham oung University Press, 1999.

SAATCHI, Mahdi. El ser humano como un extraño em el mundo: relato del Garbah Al-Garbiyah, In: Sadra: Revista de Filosofia Islâmica, n. 8, enero 2025, pp. 73-78.

 

 

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