Limiares: Ártemis, Porfírio e o Nemeton (por Daniel Placido)

 

Na religião grega antiga, a deusa Ártemis ocupava uma posição singular: não pertencia inteiramente ao mundo civilizado da pólis tampouco ao domínio da natureza selvagem, de acordo com Jean-Pierre Vernant (2021). Não por acaso, seus santuários localizavam-se amiúde em bosques, montanhas e fronteiras, lugares distantes onde a ordem humana encontrava as forças indomadas da vida natural. Esses espaços não representavam apenas o intocado e o incivilizado, o totalmente outro, porém uma zona de transição e contato entre cultura e natureza. Como protetora dos animais selvagens, dos caçadores e dos jovens em transição para a vida adulta e dos espaços marginais, Ártemis encarna perfeitamente essa condição liminar, uma dialética de alteridade e semelhança.


Essa condição encontra, a nosso ver, um paralelo com a interpretação de Porfírio em O Antro das Ninfas (2022). Para o filósofo neoplatônico, a caverna dedicada às ninfas, encontrada por Ulisses no retorno à  Ítaca (Odisseia, canto 13), não constitui apenas um lugar físico, mas uma representação simbólica do cosmos e da trajetória da alma. Com suas duas entradas, uma para humanos e outra para deuses, o antro torna-se, na leitura porfiriana, um lócus de passagem entre diferentes níveis da realidade, situando-se entre o mundo sensível e o inteligível. É o lugar por onde as almas descem do inteligível ao mundo material e pelo qual podem, inversamente, ascender e retornar à sua origem divina.

De modo semelhante, o bosque ou a clareira sagrada dos celtas, chamada de nemeton, também pode ser compreendida como um espaço fronteiriço, segundo E. Ierardo (2024). Afastado da vida cotidiana da aldeia ou da cidade, o bosque na tradição celta funcionava como um templo natural, assim como as fontes e rios, constituindo um lugar sagrado de encontro entre os seres humanos, a natureza e as potências divinas subjacentes. Nesses ambientes ermos e preservados, em tempos pretéritos os misteriosos druidas realizavam seus rituais em busca de conexão com o universo e os deuses. Analogamente aos santuários associados a Ártemis e ao antro de Porfírio, o nemeton funcionava como uma esfera intermediária em que diferentes âmbitos da existência se encontravam.

Por conseguinte, os espaços consagrados a Ártemis, o antro das ninfas e o bosque celta expressam uma mesma estrutura simbólica: a existência de territórios intermediários nos quais as oposições se colocam e se reconciliam, entre cultura e natureza, humano e natureza, humano e divino. Nesses lugares, o indivíduo deixa temporariamente o espaço ordenado da sociedade convencional para ingressar em uma realidade mais profunda, por assim dizer, primordial. Uma mesma ideia persiste, assim, sob exemplos e tradições distintas: a sacralidade dos espaços de fronteira, onde o humano, o natural e o divino encontram-se.

 

Bibliografia

Em el bosque celta, Esteban Ierardo, 2024: https://estebanierardo.com/2024/07/20/en-el-bosque-celta/

O Antro das Ninfas, Porfírio. Nova Acrópole, 2022.

A morte nos olhos: a figura do Outro na Grécia Antiga, Jean-Pierre Vernant. São Paulo: Unesp, 2021.

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