Três tipos de filósofos: teósofos, intelectuais puros e militantes (por Daniel Placido)
Ao longo da história, a filosofia assumiu diferentes formas e finalidades, de acordo com o contexto. De modo geral, é possível distinguir três grandes tipos de filósofos: os teósofos, voltados à espiritualidade; os intelectuais puros, dedicados estritamente ao saber racional e científico; e os militantes, engajados na transformação social.
Na Antiguidade, a começar pelos lendários Pitágoras e Platão, em que pese o interesse político desses dois, temos um tipo de filósofo voltado mais para a espiritualidade e para a aquisição de um saber divino, por assim dizer, “revelado”. Essa tendência se acentua com o sincretismo filosófico-religioso do helenismo, e Plotino seria, dessa forma, um exemplo perfeito desse tipo.
Até um cético como B. Russell, não sem
uma dose de humor, comparou Plotino, certa vez, a uma mistura improvável de Einstein
com Gandhi, ou seja, a de um intelectual que levava uma vida pura e
contemplativa. O que faz sentido.
Conforme o relato porfiriano,
Plotino tinha, aparentemente, poderes psíquicos incomuns. Os supostos ataques
mágicos de feiticeiros como Olímpio não lhe surtiam efeito algum. Era capaz de
sentir a condição anímica das pessoas por intuição. Tinha uma conexão
misteriosa com os deuses e daimons. Era dócil e amável com todos,
desapegado das coisas materiais e do próprio corpo. Seu interesse político existia,
mas restrito a fundar uma República aristocrática ao estilo platônico, projeto
que não saiu do papel.
A meta de sua filosofia e de sua
vida era a união com o Uno, que pode ser entendido como o divino para além do
próprio Ser, do intelecto e da razão humana. Segundo Porfírio, Plotino teve,
por quatro vezes, a experiência mística da união.
Na mesma linha, podemos incluir
filósofos visionários de outras épocas e tradições, como Jacob Boehme, Ibn
Arabî e Mulla Sadra. Esse tipo de filósofo pode ser designado como teósofo ou
visionário.
Já Aristóteles, segundo M. Vegetti
e F. Ademolo, inaugurou uma tradição de um novo tipo de filósofo. Não mais um
filósofo que representava um conhecimento arcaico e especial, negado aos meros
mortais, e que tinha, por isso, direito à realeza entre os homens, como queriam
pitagóricos e (neo)platônicos, e sim um filósofo dedicado estritamente ao
âmbito do pensamento e dos saberes teóricos, sem sequer uma expressão da vida
filosófica perante a cidade, como tinha sido outrora Sócrates.
Nessa mesma linha, Foucault
acrescenta que Aristóteles foi quem menos considerou a questão da
espiritualidade dentro da filosofia, no sentido do cuidado de si, sendo,
portanto, o fundador da filosofia no sentido moderno do termo, uma
exceção, e não o ápice da Antiguidade.
Ainda que Aristóteles, sabidamente,
cumprisse os ritos aos deuses e reconhecesse a natureza divina do intelecto em
nós, seu pensamento abriu ampla margem para a negação tanto do outro mundo — já
que não existem formas separadas e, portanto, não existe mundo inteligível —
quanto da imortalidade da alma e da transmigração. O deus de Aristóteles é um
ser puramente racionalizado, causa primeira e causa de si, motor imóvel; ele
atrai tudo para si sem se mover: ato puro, perfeito, mas que não tem conexão
com o mundo; em suma, pensamento do pensamento em eterna solidão. Esse tipo de
filósofo pode ser designado, creio eu, como o intelectual puro.
Temos, por fim, um terceiro tipo de
filósofo, fruto da modernidade e da era revolucionária, que é o filósofo
engajado em revoluções e revoltas sociais.
Seu modelo seria, inicialmente,
Voltaire. Filósofo radical das Luzes, Voltaire atacou o absolutismo, a
intolerância religiosa e toda forma de superstição. Engajou-se na Enciclopédia
com outros intelectuais. Foi preso na Bastilha e, depois, exilado na
Inglaterra. Da Inglaterra, atacou a França do Antigo Regime em crise. Sua pena
corajosa e sarcástica causava medo em monarcas e clérigos europeus. Ainda que
não fosse exatamente um defensor da democracia liberal, suas ideias foram um
combustível inegável para a revolução burguesa.
Voltaire não era ateu, mas defendia
uma visão estritamente iluminista da religião: o deísmo. Deus é o Supremo
Arquiteto do Universo, o ser responsável pela criação e pela ordem natural e
moral do universo, mas que não interfere nem suspende suas leis por meio de
milagres. Nesse sentido, lembra o deus puramente racional e alienado de
Aristóteles.
Nessa mesma linha, podem ser
incluídos intelectuais ainda mais radicais do que Voltaire, como Marx e Sartre,
inclusive com a defesa aberta do ateísmo, todos engajados em causas políticas e
sociais. Esse tipo pode ser designado como militante ou engajado.
Bibliografia
FOUCAULT, Michel. A hermenêutica do
sujeito. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
PORFÍRIO. Sobre a Vida de Plotino e a ordem dos seus livros. Belo Horizonte: Nova
Acrópole, 2020.
RUSSELL, Bertrand. História da
Filosofia Ocidental. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2025.
VEGETTI, Mario & ADEMOLLO,
Francesco. Encontro com Aristóteles: quinze lições. São Paulo, 2024.
VOLTAIRE. Dicionário Filosófico. São
Paulo: Abril Cultural, 1978
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