Quatro tipos de filósofos - revisado (por Daniel Placido)
Ao longo da história, a filosofia assumiu diferentes formas e finalidades, de acordo com o contexto. De modo geral, é possível distinguir quatro grandes tipos de filósofos: os reis- filósofos, unindo teoria e prática, filosofia e política; os teósofos, voltados à espiritualidade; os intelectuais puros, dedicados estritamente ao saber racional e científico; e os militantes, engajados na transformação social.
Na Antiguidade, a começar por Pitágoras e Arquitas, mas consumado sobretudo em Platão, temos um tipo de filósofo voltado para a espiritualidade e para a aquisição de um saber divino, por assim dizer, “revelado”, mas cuja sabedoria se concretiza na vida política, na organização da comunidade.
Após incursões fracassadas na realpolitik, Platão idealiza na "República" uma sociedade em que a justiça consiste em que cada indivíduo e grupo atue de acordo com sua qualificação natural. O filósofo, correlato à alma racional, é aquele que conheceu o mundo inteligível diretamente, conheceu o Bem ou o divino, e portanto compete a ele voltar ao plano terreno e exercer o governo da cidade, protegida pelos guerreiros e sustentada pelos trabalhadores. A própria Academia teria como função formar esse filósofo virtuoso e prático, e esse tipo é o rei-filósofo.
Na esteira do platonismo se desenvolveu, contudo, uma tendência mais mística, que se acentua com o sincretismo filosófico-religioso do helenismo, e Plotino seria, dessa forma, um exemplo perfeito desse segundo tipo.
Até um cético como B. Russell, não sem
uma dose de humor, comparou Plotino, certa vez, a uma mistura improvável de Einstein
com Gandhi, ou seja, a de um intelectual que levava uma vida pura e
contemplativa. O que faz sentido.
Conforme o relato porfiriano, Plotino tinha, aparentemente, poderes psíquicos incomuns. Os supostos ataques mágicos de feiticeiros como Olímpio não lhe surtiam efeito algum. Era capaz de sentir a condição anímica das pessoas por intuição. Tinha uma conexão misteriosa com os deuses e daimons. Era dócil e amável com todos, desapegado das coisas materiais e do próprio corpo. Seu interesse político existia, contudo restrito a fundar uma República aristocrática ao estilo platônico, que consistia mais em uma comunidade fechada de filósofos do que em uma nova organização da totalidade social. Projeto que não saiu do papel, diga-se de passagem.
A meta de sua filosofia e de sua
vida era a união com o Uno, que pode ser entendido como o divino para além do
próprio Ser, do intelecto e da razão humana. Segundo Porfírio, Plotino teve,
por quatro vezes, a experiência mística da união.
Na mesma linha, podemos incluir
filósofos visionários de outras épocas e tradições, como Jacob Boehme, Ibn
Arabî e Mulla Sadra. Esse segundo tipo de filósofo pode ser designado como teósofo ou
visionário.
Já Aristóteles, segundo M. Vegetti
e F. Ademolo, inaugurou uma tradição de um novo tipo de filósofo. Não mais um
filósofo que representava um conhecimento arcaico e especial, negado aos meros
mortais, e que tinha, por isso, direito à realeza entre os homens, como queriam
pitagóricos e (neo)platônicos, e sim um filósofo dedicado estritamente ao
âmbito do pensamento e dos saberes teóricos, sem sequer uma expressão da vida
filosófica perante a cidade, como tinha sido outrora Sócrates.
Nessa mesma linha, Foucault
acrescenta que Aristóteles foi quem menos considerou a questão da
espiritualidade dentro da filosofia, no sentido do cuidado de si, sendo,
portanto, o fundador da filosofia no sentido moderno do termo, uma
exceção, e não o ápice da Antiguidade.
Ainda que Aristóteles, sabidamente,
cumprisse os ritos aos deuses e reconhecesse a natureza divina do intelecto em
nós, seu pensamento abriu ampla margem para a negação tanto do outro mundo — já
que não existem formas separadas e, portanto, não existe o mundo inteligível transcendente —
quanto da imortalidade da alma e da transmigração. O deus de Aristóteles é um
ser puramente racionalizado, causa primeira e causa de si, motor imóvel; ele
atrai tudo para si sem se mover: ato puro, perfeito, mas que não tem conexão
com o mundo; em suma, pensamento do pensamento em eterna solidão. Esse tipo de
filósofo pode ser designado como o intelectual puro.
Temos, por fim, um quarto tipo de
filósofo, fruto da modernidade e da era revolucionária, que é o filósofo
engajado em revoluções e revoltas sociais.
Seu modelo seria, inicialmente,
Voltaire. Filósofo radical das Luzes, Voltaire atacou o absolutismo, a
intolerância religiosa e toda forma de superstição. Engajou-se na Enciclopédia
com outros intelectuais. Foi preso na Bastilha e, depois, exilado na
Inglaterra. Da Inglaterra, atacou a França do Antigo Regime em crise. Sua pena
corajosa e sarcástica causava medo em monarcas e clérigos europeus. Ainda que
não fosse exatamente um defensor da democracia liberal, suas ideias foram um
combustível inegável para a revolução burguesa.
Voltaire não era ateu, mas defendia
uma visão estritamente iluminista da religião: o deísmo. Deus é o Supremo
Arquiteto do Universo, o ser responsável pela criação e pela ordem natural e
moral do universo, mas que não interfere nem suspende suas leis por meio de
milagres. Nesse sentido, lembra o deus puramente racional e alienado de
Aristóteles.
Nessa mesma linha, podem ser
incluídos intelectuais ainda mais radicais do que Voltaire, como Rousseau, Marx e Sartre,
inclusive com a defesa aberta, às vezes, do ateísmo, todos engajados em causas políticas e
sociais. Ainda que tenham algum utopismo em comum com o platonismo, eles rejeitam o mundo transcendente. Esse tipo de filósofo pode ser designado como militante ou engajado.
Bibliografia
FOUCAULT, Michel. A hermenêutica do
sujeito. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
PORFÍRIO. Sobre a Vida de Plotino e a ordem dos seus livros. Belo Horizonte: Nova
Acrópole, 2020.
RUSSELL, Bertrand. História da
Filosofia Ocidental. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2025.
VEGETTI, Mario & ADEMOLLO,
Francesco. Encontro com Aristóteles: quinze lições. São Paulo, 2024.
VOLTAIRE. Dicionário Filosófico. São
Paulo: Abril Cultural, 1978
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