Com ajuda dos meus bons amigos (por Daniel Plácido)

 Aproveito que hoje é o Dia do Amigo para recordar de alguns amigos estudiosos que já partiram e que foram essenciais para a minha formação.

O primeiro deles é Thomas Sixel, antroposofista e especialista em agricultura biodinâmica. A forma como o conheci foi curiosa. Eu havia lido uma antiga carta sua publicada na revista Planeta, na qual contestava um artigo sobre Rudolf Steiner. Pesquisei seu nome na internet, encontrei seu e-mail e lhe escrevi. Ele respondeu de forma cordial e, a partir daí, passamos a trocar mensagens com frequência. Conversávamos sobre diversos assuntos relacionados à Antroposofia e à Filosofia. Certa vez, inclusive, ele revisou um texto que eu havia escrito.

Nossa maior divergência dizia respeito à relação entre Steiner e Nietzsche. Embora Steiner tenha escrito um livro sobre Nietzsche numa época em que o filósofo alemão se encontrava entre o ostracismo e a loucura, o Steiner posterior, já criador da Antroposofia, passou a considerar que o Nietzsche de seus últimos escritos estava sob influências maléficas, de natureza arimânica.

O segundo é Ralf Rickli, filósofo, educador e escritor, um verdadeiro amante das polêmicas. Já escrevi sobre ele aqui no blog. Conhecemo-nos primeiro pela internet e, depois, pessoalmente, na USP, onde assisti a uma palestra sua. Ralf era um autêntico herdeiro da contracultura dos anos 1960; parecia ter saído diretamente de Woodstock ou de uma barricada de Maio de 1968 para o presente. Adorava um bom debate e era de uma honestidade intelectual e de uma coragem raras. Inspirava-se na Antroposofia, mas dela assimilava apenas aquilo que fazia sentido para si. Nunca teve receio de questionar abertamente os temas mais espinhosos, como a existência de um possível racismo na Antroposofia e, também, seu estranho flerte, em certos momentos, com o fascismo -- posição que, certamente, lhe rendeu muitos desafetos.

O terceiro é o professor António de Macedo. Também nos conhecemos pela internet, por e-mail. Cheguei, inclusive, a entrevistá-lo em 2007. Conversávamos sobre esoterologia, rosacrucianismo e temas correlatos. Gentilmente, enviou-me de Portugal dois de seus livros: O Esoterismo da Bíblia e Cristianismo Iniciático. São obras de grande erudição e elevada qualidade acadêmica. Também incentivou meus estudos, dizendo que eu deveria desenvolver melhor minhas ideias e publicar artigos sobre elas -- conselho que, com o tempo, acabei seguindo.

O quarto é Claudio Willer, grande poeta, tradutor e crítico literário. Era um anarquista tanto no sentido político quanto no ético, um verdadeiro espírito livre. Inicialmente trocamos emails. Depois assisti a uma palestra sua sobre criação literária e, mais tarde, a um curso sobre William Blake e o gnosticismo, que só não foi melhor porque seu estado de saúde já era visivelmente precário. Em nome da Editora Polar, presenteei-o com uma edição do Corpus Hermeticum, que ele divulgou com entusiasmo entre os alunos.

O quinto é o professor Ricardo Mario Gonçalves, historiador e renomado especialista em budismo. Conhecemo-nos pelas redes sociais. Era gentil, modesto e, apesar da erudição e do reconhecimento acadêmico, estava sempre disposto a conversar com quem o procurasse para um diálogo esclarecido. Trocávamos ideias pela internet sobre perenialismo, religiões e temas afins. Certa vez, elogiou um vídeo meu sobre o esoterismo na academia e se dispôs a ler alguns textos ainda bastante embrionários que eu havia escrito. Adorava gatos. Tinha também uma clara inclinação ao paganismo, enquanto eu me encontrava mais ligado ao monoteísmo. Nunca cheguei a lhe perguntar se essa diferença gerava alguma tensão entre nós; às vezes, tinha a impressão de que sim. 

O sexto e último não chegou propriamente a ser um amigo, pois nosso contato foi breve, mas tenho por ele a estima que se dedica a um. Refiro-me ao professor Francisco García Bazán. Seus livros sobre filosofia da religião, tradições e esoterismo foram fundamentais para a minha formação, assim como para a de muitos outros pesquisadores. Conversamos pela internet. Foi gentil e receptivo; acabei por entrevistá-lo, e ele faleceu, infelizmente, pouco tempo depois.

Neste Dia do Amigo, lembro-me de todos eles com profunda gratidão. Cada um, à sua maneira, contribuiu para ampliar meus horizontes intelectuais. Muito do que hoje escrevo deve-se, direta ou indiretamente, aos diálogos que tivemos. 

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