Origens históricas da Rosacruz (por Daniel Placido)

 (*Trecho de um artigo meu já publicado)

O século XVI europeu deu continuidade e ampliou uma tendência esotérica sincrética surgida no Renascimento, associada ao hermetismo, à cabala, à alquimia e a outros saberes ocultos (BALL, 2009: 138-140). No caso específico da Alemanha, conforme Fabio Mendia (2016: 124 ss.), desenvolveu-se também, desde o Medievo, uma corrente espiritual pietista, voltada para a ascese e a transformação interior, sob inspiração de Eckhart, Ruysbroeck e Tauler. Durante os períodos renascentista e moderno, essa corrente aproximou-se do protestantismo e da teosofia de Jacob Boehme. Paralelamente, surgiram grupos que acreditavam na proximidade do Apocalipse e na chegada da Era do Espírito Santo, influenciados pelo pensamento milenarista do monge medieval italiano Joaquim de Flora, que dividia a história humana em idades correspondentes às três pessoas da Trindade. A terceira idade, associada ao Espírito Santo, corresponderia a uma época de liberdade e elevada espiritualidade (MENDIA, 2016).

 A esse contexto deve ser acrescentada, conforme Cristopher McIntosh (2006), a Reforma luterana (1517-1555), cujo principal epicentro foi justamente a Alemanha. Após a Reforma, o país ficou dividido entre católicos e protestantes, e a tensão entre esses grupos culminou na Guerra dos Trinta Anos (1618-1638). Embora o protestantismo, em sua totalidade, não fosse receptivo à tradição esotérica, algumas de suas vertentes acabaram estabelecendo uma aproximação com ela (BALL, 2009).

 Foi precisamente nesse contexto pós-Reforma que surgiram na Alemanha, de forma anônima, três textos singulares: Fama fraternitatis R. C. (Kassel, 1614), Confessio fraternitatis (Kassel/Frankfurt, 1615) e As bodas alquímicas de Christian Rosenkreuz (Estrasburgo, 1616). O primeiro texto consistia em um manifesto que tornava pública a existência da Fraternidade Rosacruz, narrava a trajetória de seu fundador, Frater C. R., identificado na Confessio como C. Rosenkreuz ou Rosenkreutz, e convocava os espíritos esclarecidos para a necessidade de uma reforma geral e profunda da ciência, da religião e das artes. O segundo texto expunha essencialmente a doutrina ou filosofia dos rosacruzes, concebida como fundamento dessa reforma universal. E o terceiro texto apresentava-se como um texto alquímico de natureza simbólica. Antes mesmo dessas publicações, cópias e versões desses documentos já circulavam em pequenos círculos intelectuais e místicos na Alemanha e também fora dela.

 Os estudos históricos apontam o teólogo alemão J.-V. Andrea e o Círculo de Tübingen como possível núcleo autoral desses textos. Esse círculo, de qualquer modo, congregava diversas influências do hermetismo, do pietismo, do protestantismo e do milenarismo (SABLÉ, 2006: 21-24; MENDIA, 2016).

 Os manifestos responsáveis pela difusão do mito rosacruz têm como personagem central Frater C. R., posteriormente identificado como Christian Rosenkreuz ou Rosenkreutz. De acordo com a Fama Fraternitatis, ele teria nascido, no século XIV, em uma família da nobreza alemã empobrecida. Durante a infância e a adolescência, teria realizado viagens pelo Oriente Próximo, passando por Chipre, Iêmen, Egito e Marrocos, em direção a Jerusalém. Ao longo desse percurso mítico, teria entrado em contato com diferentes sábios e iniciados, por meio dos quais teria aprendido alquimia, magia, astrologia, medicina, os segredos do macrocosmo e do microcosmo, os ciclos históricos e até mesmo a comunicação com os seres elementares da natureza.

 Depois dessa extensa etapa de aprendizagem e já em plena maturidade, Frater C. R. teria retornado à Europa, inicialmente pela Espanha, movido pela intenção de reconstruir as bases de todo o conhecimento existente e acumulado. Entretanto, não teria encontrado o apoio dos eruditos europeus de seu tempo, que, segundo o relato, estavam imersos em uma falsa sabedoria, vaidosa e vã. De volta à Alemanha, reuniu secretamente um pequeno e seleto grupo de homens, dando origem à misteriosa Ordem, Fraternidade ou Confraria dos rosacruzes. Seu propósito seria promover a renovação da espiritualidade, do conhecimento e da sociedade europeias por meio de uma atuação prática.

 Segundo a Fama Fraternitatis, os membros das primeiras gerações foram morrendo, enquanto novos integrantes eram gradualmente escolhidos. C. Rosenkreuz teria falecido em 1484, aos 106 anos. Cento e vinte anos mais tarde, em 1604, sua tumba — cuja localização permanecera desconhecida até então — teria sido descoberta pelos irmãos rosacruzes da geração contemporânea. Esse acontecimento teria marcado o momento de tornar pública a existência e os objetivos da Fraternidade Rosacruz.

 Posteriormente, surgiram inúmeras organizações e autores que reivindicaram ser os continuadores do verdadeiro rosacrucianismo, constituindo, com ou sem legitimidade, o que podemos chamar de tradição rosacruciana. No final do século XIX, essa tradição encontrou uma de suas expressões mais relevantes na fundação da Ordem Hermética da Aurora Dourada (Golden Dawn), organização ocultista que retomou e sistematizou elementos do hermetismo, da cabala, da alquimia, da magia ritual e de outras correntes do esoterismo ocidental.

Referências

BALL, Philip. O médico do demônio: Paracelso e o mundo da magia e da ciência renascentista. Rio de Janeiro: Imago, 2009.

FRÉRE, Jean-Claude. Vida e Mistério dos Rosacruzes. São Paulo: Pensamento, 1993.

GORCEIX, Bernard. A Bíblia Rosacruz. São Paulo: Pensamento, 1977.

LACHMAN, Gary. A História Secreta da Política Ocidental. São Paulo: Cultrix, 2013.

MCINTOSH, Christopher. O sonho rosacruciano, In: Esoterismo e Magia no mundo ocidental, J. Kinney (org.). São Paulo: Pensamento, 2006, pp. 183-192

MENDIA, Fabio. A Rosa do Encoberto: uma hermenêutica exploratória do pensamento esotérico de matiz rosacruciano de Fernando Pessoa. São Paulo: Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciência da Religião, PUC-SP, 2016. (Tese de Doutorado)

ROMÃO, Renan Lescano. Ideologia e Imaginário Rosacruz, In: A Gnose ocidental: dos antigos mistérios às correntes esotéricas contemporâneas, Adelmo Avancini & Claudio Moraes (org.). São Paulo: Civitas Solis, 2023.

SABLÉ, Erik. Dicionário dos rosacruzes. São Paulo: Madras, 2006.

YEATS, William Butler. Magia, compilado por Matías Battistón. Buenos Aires: Interzona Editora, 2018.

 

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