(*Trecho de um artigo meu já publicado)
O
século XVI europeu deu continuidade e ampliou uma tendência esotérica
sincrética surgida no Renascimento, associada ao hermetismo, à cabala, à
alquimia e a outros saberes ocultos (BALL, 2009: 138-140). No caso específico
da Alemanha, conforme Fabio Mendia (2016: 124 ss.), desenvolveu-se também,
desde o Medievo, uma corrente espiritual pietista, voltada para a ascese e a
transformação interior, sob inspiração de Eckhart, Ruysbroeck e Tauler. Durante
os períodos renascentista e moderno, essa corrente aproximou-se do
protestantismo e da teosofia de Jacob Boehme. Paralelamente, surgiram grupos
que acreditavam na proximidade do Apocalipse e na chegada da Era do Espírito
Santo, influenciados pelo pensamento milenarista do monge medieval italiano
Joaquim de Flora, que dividia a história humana em idades correspondentes às
três pessoas da Trindade. A terceira idade, associada ao Espírito Santo,
corresponderia a uma época de liberdade e elevada espiritualidade (MENDIA,
2016).
A
esse contexto deve ser acrescentada, conforme Cristopher McIntosh (2006), a
Reforma luterana (1517-1555), cujo principal epicentro foi justamente a
Alemanha. Após a Reforma, o país ficou dividido entre católicos e protestantes,
e a tensão entre esses grupos culminou na Guerra dos Trinta Anos (1618-1638).
Embora o protestantismo, em sua totalidade, não fosse receptivo à tradição
esotérica, algumas de suas vertentes acabaram estabelecendo uma aproximação com
ela (BALL, 2009).
Foi
precisamente nesse contexto pós-Reforma que surgiram na Alemanha, de forma
anônima, três textos singulares: Fama fraternitatis R. C. (Kassel, 1614),
Confessio fraternitatis (Kassel/Frankfurt, 1615) e As bodas alquímicas de
Christian Rosenkreuz (Estrasburgo, 1616). O primeiro texto consistia em um
manifesto que tornava pública a existência da Fraternidade Rosacruz, narrava a
trajetória de seu fundador, Frater C. R., identificado na Confessio como C. Rosenkreuz
ou Rosenkreutz, e convocava os espíritos esclarecidos para a necessidade de uma
reforma geral e profunda da ciência, da religião e das artes. O segundo texto
expunha essencialmente a doutrina ou filosofia dos rosacruzes, concebida como
fundamento dessa reforma universal. E o terceiro texto apresentava-se como um
texto alquímico de natureza simbólica. Antes mesmo dessas publicações, cópias e
versões desses documentos já circulavam em pequenos círculos intelectuais e
místicos na Alemanha e também fora dela.
Os
estudos históricos apontam o teólogo alemão J.-V. Andrea e o Círculo de
Tübingen como possível núcleo autoral desses textos. Esse círculo, de qualquer
modo, congregava diversas influências do hermetismo, do pietismo, do
protestantismo e do milenarismo (SABLÉ, 2006: 21-24; MENDIA, 2016).
Os
manifestos responsáveis pela difusão do mito rosacruz têm como personagem
central Frater C. R., posteriormente identificado como Christian Rosenkreuz ou
Rosenkreutz. De acordo com a Fama Fraternitatis, ele teria nascido, no século
XIV, em uma família da nobreza alemã empobrecida. Durante a infância e a
adolescência, teria realizado viagens pelo Oriente Próximo, passando por
Chipre, Iêmen, Egito e Marrocos, em direção a Jerusalém. Ao longo desse
percurso mítico, teria entrado em contato com diferentes sábios e iniciados,
por meio dos quais teria aprendido alquimia, magia, astrologia, medicina, os
segredos do macrocosmo e do microcosmo, os ciclos históricos e até mesmo a
comunicação com os seres elementares da natureza.
Depois
dessa extensa etapa de aprendizagem e já em plena maturidade, Frater C. R.
teria retornado à Europa, inicialmente pela Espanha, movido pela intenção de
reconstruir as bases de todo o conhecimento existente e acumulado. Entretanto,
não teria encontrado o apoio dos eruditos europeus de seu tempo, que, segundo o
relato, estavam imersos em uma falsa sabedoria, vaidosa e vã. De volta à
Alemanha, reuniu secretamente um pequeno e seleto grupo de homens, dando origem
à misteriosa Ordem, Fraternidade ou Confraria dos rosacruzes. Seu propósito
seria promover a renovação da espiritualidade, do conhecimento e da sociedade
europeias por meio de uma atuação prática.
Segundo
a Fama Fraternitatis, os membros das primeiras gerações foram morrendo,
enquanto novos integrantes eram gradualmente escolhidos. C. Rosenkreuz teria
falecido em 1484, aos 106 anos. Cento e vinte anos mais tarde, em 1604, sua
tumba — cuja localização permanecera desconhecida até então — teria sido
descoberta pelos irmãos rosacruzes da geração contemporânea. Esse acontecimento
teria marcado o momento de tornar pública a existência e os objetivos da
Fraternidade Rosacruz.
Posteriormente,
surgiram inúmeras organizações e autores que reivindicaram ser os continuadores
do verdadeiro rosacrucianismo, constituindo, com ou sem legitimidade, o que
podemos chamar de tradição rosacruciana. No final do século XIX, essa tradição
encontrou uma de suas expressões mais relevantes na fundação da Ordem Hermética
da Aurora Dourada (Golden Dawn), organização ocultista que retomou e
sistematizou elementos do hermetismo, da cabala, da alquimia, da magia ritual e
de outras correntes do esoterismo ocidental.
Referências
BALL,
Philip. O médico do demônio: Paracelso e o mundo da magia e da ciência
renascentista. Rio de Janeiro: Imago, 2009.
FRÉRE,
Jean-Claude. Vida e Mistério dos Rosacruzes. São Paulo: Pensamento, 1993.
GORCEIX,
Bernard. A Bíblia Rosacruz. São Paulo: Pensamento, 1977.
LACHMAN,
Gary. A História Secreta da Política Ocidental. São Paulo: Cultrix, 2013.
MCINTOSH,
Christopher. O sonho rosacruciano, In: Esoterismo e Magia no mundo ocidental,
J. Kinney (org.). São Paulo: Pensamento, 2006, pp. 183-192
MENDIA,
Fabio. A Rosa do Encoberto: uma hermenêutica exploratória do pensamento
esotérico de matiz rosacruciano de Fernando Pessoa. São Paulo: Programa de
Estudos Pós-Graduados em Ciência da Religião, PUC-SP, 2016. (Tese de Doutorado)
ROMÃO,
Renan Lescano. Ideologia e Imaginário Rosacruz, In: A Gnose ocidental: dos
antigos mistérios às correntes esotéricas contemporâneas, Adelmo Avancini &
Claudio Moraes (org.). São Paulo: Civitas Solis, 2023.
SABLÉ,
Erik. Dicionário dos rosacruzes. São Paulo: Madras, 2006.
YEATS,
William Butler. Magia, compilado por Matías Battistón. Buenos Aires: Interzona
Editora, 2018.
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