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Fenomenologia em R. Steiner, H. Corbin e R. Abellio (por Daniel Placido)

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  Enquanto alguns autores esotéricos no século XX procuraram contrapor de forma irremediável Tradição esotérica e ciência/filosofia modernas, outros pensadores trilharam um caminho de conciliação e diálogo entre ambas as áreas de conhecimento. Entre eles, abordarei três filósofos distintos, que, todavia, estiverem intimamente relacionados à moderna fenomenologia: R. Steiner, R. Abellio e H. Corbin. A fenomenologia foi criada no começo do século XX por E. Husserl (1859-1938) em um contexto em que o positivismo lógico e o fisicalismo eram influentes na filosofia e nas ciências. Husserl, a partir do conceito de intencionalidade, considerou que toda consciência é consciência de algo, ou seja, está direcionada a um objeto que, por sua vez, apresenta sentido para ser captado por ela, em uma unidade indissolúvel. Seria assim a fenomenologia um método de captar e interpretar o sentido ou a essência das coisas tais como se mostram à consciência, ou seja, uma ciência eidética baseada na in...

H. Kelsen sobre o "gnosticismo" em Voegelin

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Hans Kelsen “ A especulação gnóstica, tal como a religião de Mani, se remete à oposição entre os reinos do bem e do mal, da luz e das sombras, do mundo espiritual e do material. Em princípio, é o mesmo dualismo que o das esferas espiritual e temporal aceito na doutrina da Igreja medieval, com a diferença de que a especulação gnóstico-maniqueísta mostrava uma tendência tão forte a identificar a esfera material da vida humana quase por completo com o reino do mal, e a opô-la em grau tão radical com o espiritual – a única esfera divina em sua concepção -, que essa esfera material podia ser considerada, de alguma maneira, desdivinizada. Se o movimento questionado é o que na história da religião em geral se denomina de gnosticismo, seu propósito é justamente o contrário do que Voegelin atribui ao que ele chama de gnosticismo. O gnosticismo histórico não divinizava senão melhor [dizendo] desdivinizava, por suposto não o mundo ou a sociedade, senão a esfera material da vida humana. Ainda que ...

O "combate pela Alma do Mundo" (por Daniel Placido)

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Como disse F. Lenoir, a modernidade filosófica e científica transformou a natureza em um todo reduzido à relações mecânicas, de partes justapostas e apreendidas de forma racional matematizada, rejeitando a ideia da natureza como um ser dotado de Alma, com relações simpáticas e antipáticas dentro de si, fundamento da magia e da imaginação como mediadora entre os níveis de realidade. Como reação a este processo, teremos a teosofia de Boehme, Swedenborg e outros, além da Filosofia da Natureza romântica de inspiração teosófica (Novalis, Schelling, Schubert), que insistirá em compreender a natureza como um ser orgânico e anímico, um todo em que as partes se relacionam por analogias e correspondências, e considera o próprio homem como um microcosmo à luz do macrocosmo.  Ademais, a modernidade foi marcada pela ascensão do racionalismo filosófico que, entre outras consequências, restringiu o status ontológico da imaginação, confundida com a fantasia (a "louca da casa"), como uma mer...

"A História do Diabo": uma leitura gnóstica (por Daniel Placido)

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  Em seu clássico ensaio filosófico “A história do Diabo” (original de 1965), Vilém Flusser (1920-1991), filósofo tcheco-brasileiro, parte de visão teológica aparentemente católica sobre o Diabo e os sete pecados capitais -- gula, luxúria, avareza, orgulho, preguiça, inveja, ira --, para estabelecer uma concepção do assunto que, a meu ver, não só é protobudista   -- e o autor sabidamente era interessado em zen-budismo, por influência de seu amigo A. Bloc --, mas também gnóstica, o que não é de estranhar, pois o livro faz alusões sutis ao maniqueísmo, antiga religião persa, a qual pretendia sintetizar de modo original zoroastrismo, cristianismo gnóstico e budismo. O Diabo (ou melhor, o Demiurgo gnóstico) é o príncipe deste mundo transitório e material, pois Flusser o identifica com a criação, com o tempo, com a historicidade, enfim, com a natureza imanente. Ademais, ele é o tecelão dos fios que capturam o homem em uma rede ilusória, afastando-o (e mesmo ocultando sua existênc...

Quem foram os essênios? (por Daniel Placido)

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  Os essênios foram um grupo sui generis do judaísmo antigo, assim como os fariseus, saduceus e zelotes, o qual se desenvolveu aproximadamente entre os séculos 3-2 AEC e a destruição do segundo Templo de Jerusalém (70 EC), e seu desaparecimento possivelmente está relacionado aos massacres de judeus perpetrados pelos romanos. Os essênios podem ter tido influência sobre os primeiros cristãos, já que João Batista, especula-se, teria sido um essênio ou alguém próximo do movimento. Entre as várias etimologias possíveis para a origem da palavra “essênios”, ela significaria “observadores da Torá”. Enquanto na Palestina e Síria eram conhecidos como “essênios”, no Egito seriam conhecidos como “terapeutas”. Haveria cerca de 4000 essênios espalhados pela região. Sobre as fontes a respeito deles, temos autores antigos como Flávio Josefo, Fílon de Alexandria, Plínio, o velho, além de Hipólito de Roma e Eusébio de Cesareia. Mais recentemente, no século XIX foi descoberto o Documento de Dama...

A Filosofia Perene e o Tradicionalismo de R. Guénon (por Daniel Placido)

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  (Este texto aproveita trechos de um artigo que escrevi para a Revista Hermetismo)   Através da obra de Marsílio Ficino (1433-1499) surgiu, no Renascimento, em um ambiente sincrético de encontro de tradições e filosofias, a noção de “prisca theologia” (FAIVRE, 2000; IDEL, M., 2002).   Ficino, influenciado por autores platônicos como Proclo e Gemistos Plethon, considerou que existia uma teologia antiga, veiculada por sábios como Zoroastro, Hermes, Orfeu, Aglaofemo, Platão, Pitágoras, que estava fundamentalmente em acordo com o cristianismo (FICINO, 1965; FICINO, 2011 b; BLUM, 2001; PLÉTHON, 1858). Apesar de Ficino considerar que outros povos e culturas (dos druidas aos brâmanes) também receberam relampejos da verdade divina, o cristianismo tinha um papel especial dentro do coro das religiões e tradições, representando a verdade divina integral e também uma “pia philosophia” (HANEGRAAFF, 2012; HANKINS, 1990; CELENZA, 2021; EDELHEIT, 2008; MONFASANI, 2002). Analogamen...

Docetismo e imaginal em H. Corbin (por Daniel Placido)

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Com base na leitura de C. Jambet ( A lógica dos orientais. SP: Globo, 2006, pp. 294-297), um discípulo do filósofo e orientalista francês Henry Corbin, o docetismo consistia na crença de alguns gnósticos antigos, assim como dos maniqueus e dos cátaros, de que Jesus não teve um corpo carnal comum, porquanto ele seria dotado de uma espécie de corpo fantasmático, espiritual ou angélico e que, portanto, sua Paixão na cruz não foi algo “real” tampouco “doloroso”. Na melhor das hipóteses, foi um teatro. Justamente nesse aspecto a heresiologia católica vislumbrou no docetismo gnóstico uma negação radical e inaceitável do sofrimento redentor de Cristo assim como uma rejeição de sua natureza realmente humana-corpórea-mortal, insistindo, contra ele, na centralidade histórico-teológica da Paixão crística e da co-humanidade de Jesus. Crucifixion (Corpus Hypercubus)  (1954), de Salvador Dalí Contudo, existem sutilezas nessa discussão sobre o docetismo, e o pensamento de H. Corbin, exposto por ...