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Excerto de Marsilio Ficino - Tradução

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 De Christiana Religione (1473) - Preâmbulo  "A sabedoria eterna de Deus determinou que os mistérios divinos, ao menos nos primórdios da religião, fossem tratados somente por aqueles que são amantes da verdadeira sabedoria. Por isso, sucedeu que, entre os antigos, os mesmos homens investigavam as causas das coisas e, diligentemente, ofereciam sacrifícios à causa suprema das próprias coisas; e esses mesmos eram, entre todas as nações, ao mesmo tempo filósofos e sacerdotes. E isso de modo algum era inadequado. Pois, uma vez que a alma — como concorda o nosso Platão — só pode alçar voo de retorno à pátria e ao Pai celestes por meio de duas asas, a saber, o intelecto e a vontade, e que o filósofo se apoia sobretudo no intelecto, enquanto o sacerdote se apoia na vontade; e uma vez que o intelecto ilumina a vontade, enquanto a vontade inflama o intelecto, segue-se que aqueles que, pela inteligência, primeiro descobriram o divino (quer o tenham encontrado por si mesmos, quer a ele te...

Mística Ocidental e Mística Oriental (Por Daniel R. Placido)

Gusdorf, em seu monumental  Tratado de Metafísica (SP: Cia Editora Nacional, 1960), generaliza suas conclusões a toda metafísica — irmã da mística — sustentando que, em ambas, a possibilidade de conhecimento e experiência do Absoluto implicaria a negação do homem concreto, empírico e histórico, como se este se dissolvesse e perdesse sua humanidade e sua historicidade. Que um filósofo de orientação anti-mística critique a metafísica e a mística é perfeitamente compreensível, embora isso não o livre de equívocos. Por sua vez, um autor de vocação mística, como Nikolai Berdiaev, em seu texto de 1912 De las distintas místicas , propõe uma convergência interessante entre Plotino e a mística indiana — comparação retomada por diversos estudiosos contemporâneos. Berdiaev observa que a “mística indiana” (referindo-se, ao que tudo indica, ao Yoga ou ao Vedānta) tende a negar o homem concreto, o eu pessoal e o mundo plural, rejeitando inclusive o Deus pessoal, pois opera em um horizonte apof...

Rudolf Steiner e as EQMs

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Com base em sua pesquisa espiritual independente, Rudolf Steiner (1861-1925)    descreveu, no começo do século XX, o (suposto) estado do ser humano entre a morte e um novo nascimento. Por exemplo,   na palestra “Man Between Death and Rebirth” (1909), Steiner considera e expõe em detalhes o percurso da alma após a morte até um novo nascimento.  Segundo Steiner, imediatamente após morrer, a alma contempla toda a sua vida passada como um grande panorama, no qual os acontecimentos aparecem simultaneamente, de forma clara e objetiva, sem envolvimento emocional. Esse “quadro mnemônico”, fruto do desprendimento do corpo etérico em relação ao corpo físico, permite que a essência espiritual de cada experiência seja preservada. Depois desse momento, a alma entra no estado chamado kamaloka, ou “reino dos desejos”, o mundo astral. Nessa etapa, ela revive sua vida em ordem inversa, mais rapidamente, experimentando interiormente os efeitos que suas ações causaram aos outros, tan...

Três entrevistas sobre Esoterismo

 Compartilho aqui o link de três entrevistas de que participei e que são relacionadas ao Esoterismo. 1- Entrevista com Eduardo Guerreiro Losso, sobre literatura e esoterismo: https://revistaursula.com.br/cultura/eduardo-guerreiro-losso-mistica-literatura-politica-e-religiao/ 2- Entrevista com Francisco G. Bazán, sobre gnosticismo, perenialismo e afins: https://revistaursula.com.br/filosofia/nas-origens-do-cristianismo-os-gnosticos-entrevista-com-francisco-garcia-bazan/ 3- Entrevista com Arthur Versluis, sobre gnosticismo, platonismo, filosofia perene e afins: https://revistaursula.com.br/ciencia/arthur-versluis-a-gnose-entremeada-na-cultura-atual-e-seus-horizontes/

William Blake: gnose e liberdade - por Daniel Placido

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Aleister Crowley, no Liber XV: a Missa Gnóstica, insere o poeta e pintor inglês W. Blake (1757-1827) na linhagem santa da gnose, ilustremente acompanhado por Bardesanes, Valentino, Boehme, Goethe, Nietzsche e outras figuras esotéricas [1]. Sem sombra de dúvida, William Blake pertencia a uma linhagem heterodoxa de místicos cujas afinidades eletivas com o gnosticismo antigo eram inegáveis, não tanto na questão metafísica e cosmológica, mas em termos de rejeição da moralidade tradicional e da institucionalização religiosa.  Blake foi tanto um homem profundamente religioso e místico quanto um rebelde em termos morais e políticos. Isso porventura pode surpreender à primeira vista, no entanto, como uma vez escreveu G. Scholem (2015), essa atitude é comum em alguns místicos porquanto, na procura pelo fundamento último das tradições, podem considerar que, a partir de sua experiência espiritual, estão acima das instituições e autoridades cimentadas sobre elas e que podem demoli-las sem nenh...

Zoroastro e o zoroastrismo (por Daniel Placido)

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  Quem foi Zoroastro? E o que é o Zoroastrismo? Zaratustra (conhecido em grego como Zoroastro ) foi um sacerdote e reformador religioso do antigo Irã, que teria vivido entre 1500 e 1200 AEC, embora algumas estimativas o situem entre 1000 e 600 AEC. Segundo a tradição, enquanto se banhava em um rio, Zoroastro teve uma visão de uma entidade angélica que se apresentou como emissária de Ahura Mazda, o Senhor Supremo. Essa entidade o levou à presença do Ser Supremo, que lhe revelou a verdade, marcando o início de sua missão profética. O zoroastrismo (às vezes chamado de mazdeísmo) é uma religião que combina elementos do monoteísmo com um dualismo teológico. Ahura Mazda (também chamado de Ohrmazd) é o Senhor Supremo e Sábio, criador da distinção primordial entre asha (verdade, ordem cósmica) e druj (mentira, caos). Dele teriam nascido dois espíritos gêmeos, cada um fazendo uma escolha: Spenta Mainyu (Espírito Benfazejo) optou pelos bons pensamentos, boas palavras e boas ações; e An...

O que é o sufismo? (por Daniel Placido)

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  Toda religião tradicional tem uma dimensão interior ou mística, assim como toda letra tem seu espírito. No caso do Islã, ela é conhecida, especialmente entre os sunitas, como sufismo (tasawwuf). Esse aspecto interior da religião islâmica teria sido revelado pelo profeta Muhammad a seus discípulos mais próximos ou companheiros, e assim sucessivamente. O profeta Muhammad é considerado, não por acaso, o modelo do Homem Perfeito para sufis. O sufismo não tenciona contradizer a sharia (lei islâmica) nem a teologia, mas complementar e aprofundar aspectos delas. Os sufis acreditam no que todo muçulmano verdadeiro acredita e seguem rigorosamente as normas práticas da religião, encarando-as não só pelo seu aspecto externo, mas também pelo aspecto interno. Por exemplo, o sufi Ibn ‘Arabî disse que cada prostração da oração islâmica está associada a um reino da existência (mineral, vegetal, animal). Eles praticam o que todo muçulmano pratica, assim como fazem orações, meditações, jejuns e ou...