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Nota sobre monoteísmo e politeísmo (por Daniel Placido)

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Edward Butler (2021) considera que o termo “teologia”, criado por Platão e Aristóteles, inicialmente se referia à uma pluralidade de deuses, à luz do politeísmo, e não tem relação com um Deus único criador, tal como a teologia posterior irá entendê-lo. Ainda que exista uma reflexão de matiz platônica sutil sobre o Uno, este não se confunde com uma unidade numérica, tampouco com o Ser, nem com qualquer objeto, sendo na verdade o princípio de individuação que permite a multiplicidade, sem relação com a concepção  teológica de um Deus único. Em uma linha de pensamento análoga, Henry Corbin (2003) faz uma crítica interessante à visão monoteísta na obra “Paradoxo do monoteísmo”. Corbin considera que o monoteísmo puramente exotérico e catafático, em sua tentativa de racionalizar o mistério divino em termos teológicos, leva à morte niilista de Deus. A visão sobre o Deus-uno, para ser aceitável, pressupõe acompanhamento de uma teologia apofática que, através de uma teosofia, mantenha ine...

A crítica de Husserl ao positivismo (por Daniel R. Placido)

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I ntrodução Neste texto, abordaremos e reconstruiremos os pontos principais da crítica do filósofo alemão Edmund Husserl ao positivismo, à luz da obra Ideias para uma fenomenologia pura e para uma filosofia fenomenológica, ou Ideias I (original de 1913). Mas o que foi o positivismo enquanto filosofia? O positivismo teve como precursores filósofos como Condorcet e Saint-Simon, que, apesar de já abraçarem uma visão de mundo na direção do cientificismo e do evolucionismo histórico, mantiveram uma visão crítica da sociedade de sua época. Mais tarde, um ex-aluno conservador de Saint-Simon, Auguste Comte, publicou de modo paulatino a obra Curso de Filosofia Positiva , entre 1830-1842. A filosofia positivista de Comte era marcada por uma visão evolucionista da história, com um esquema subjacente de três estágios evolutivos: primeiro o estágio mítico-teológico, em que os seres humanos acreditavam em seres e forças sobrenaturais que deviam ser agradadas; depois o estágio metafísico, corr...

Comentários às “Teses” de W. Benjamin (por Daniel Placido)

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  Introdução Segundo G. Theborn (2012, p. 63-64), a tradição marxista, heterogênea e multifacetada, oscilou em sua ênfase entre os dois polos dialéticos (“chifres”) da modernidade, ora a realçar mais seu aspecto emancipador, ora o seu aspecto explorador. Por exemplo, na II Internacional e no seu desdobramento social-democrata no começo do século XX, o aspecto explorador da modernidade foi mitigado por uma visão evolucionista e otimista a respeito da capacidade de reação dos sindicatos e partidos operários ao capitalismo, possivelmente sob influência do otimismo típico da Belle Epoque , logo banhado sob uma ducha fria pela I Guerra Mundial. Em contrapartida, na corrente marxista conhecida como “Escola de Frankfurt” foram salientados os aspectos contraditórios e negativos da modernidade, sem o apontamento para um futuro melhor, em um contexto histórico de ascensão do nazifascismo e do estalinismo. Dentro do espectro da Escola de Frankfurt, vamos nos ater neste texto às posições...

A mística de Plotino hoje e o Vedanta (por Daniel Placido)

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À luz do contexto moderno, o legado da filosofia de Plotino, especialmente o de sua mística, é discutido por diversos autores, e gostaria de iniciar este texto com um confronto entre as perspectivas distintas de dois deles: Pierre Hadot e Reinholdo A. Ullmann. Certamente influenciado pelo marxismo e pelo existencialismo, Pierre Hadot (2019: 128-135), apesar de reconhecer a universalidade e atualidade do chamado místico de Plotino, não pode concordar neste último com a (suposta) desvalorização do mundo concreto da multiplicidade, ainda que uma desvalorização parcial, sem cair no dualismo gnóstico. O homem moderno, para Hadot, aprendeu com Marx, Freud e outros, a desconfiar de qualquer forma de conhecimento, mesmo que interno, que não leve em conta o papel das estruturas sociais, econômicas, culturais ou psíquicas (inconsciente) na sua produção. Para Hadot a mística plotínica continua válida no quadro da modernidade, mas ela precisa situar o homem dentro da pluralidade do mundo socia...

Gnósticos, Maniqueus e Docetismo (por Daniel Placido)

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Conforme Joan O’Grady, o docetismo não deve ser considerado uma seita ou grupo herético em sentido estrito, mas uma tendência que perpassou várias heresias nos primórdios do cristianismo, e cujo cerne era considerar a existência terrena de Jesus uma aparência, algo fantasmático, o que implicava em sua desumanização ou mitificação, além de considerar sua paixão e crucificação uma espécie de encenação teatral, já que seu corpo era etéreo e impassível (O’GRADY, 1994: 21 e 43).  Essa teoria foi aceita por alguns gnósticos, conforme Ireneu de Lião ( Contra as Heresias , III, 16, 1), em especial por valentinianos e marcionistas (O’ GRADY, 1994: 43, 80). Dessa forma, eles não acreditavam que o enviado divino nesta terra poderia viver e morrer como um homem comum, até porque tendiam a considerar a matéria como decaída e oposta ao domínio espiritual. Segundo G. R. S. Mead, a concepção docética era escandalosa e inaceitável para os cristãos fiéis à ortodoxia da Igreja em formação, pois mitig...

"Oráculos caldeus", teurgia e neoplatonismo (por Daniel Placido)

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  O s Oráculos caldeus são um conjunto de versos relacionados com a teurgia e foram disseminados a partir dos séculos II-III EC. Tal material chegou até nós em uma condição fragmentária, citado por autores como Proclo, Damáscio, Psellos e Plethon. Os Oráculos não foram tomados como simples textos autorais, e sim como mensagens divinas reveladas através de transes místicos, cujos veiculadores seriam Juliano pai, o caldeu, que teria vindo da Caldeia ou da Síria para Roma, e seu filho homônimo Juliano, o teurgo, figuras possivelmente contemporâneas do imperador e filósofo estóico Marco Aurélio (século II EC). Nos Oráculos ocorre a busca da salvação da alma através da recepção de uma inspiração divina e da prática de ritos tradicionais, com uma linguagem mágico-simbólica para invocar os deuses, que, por sua vez, transmitiriam mensagens mediante transes místicos (KÖRBES HAUSCHLID, 2018: 52-53). As ideias presentes nos Oráculos têm afinidade com o platonismo tardio, e circularam ...

Plethon e a migração do platonismo (por Daniel Placido)

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  Enquanto lia um texto de Alexander Dugin, achei tão curiosa quanto vaga esta afirmação dele, “Platonismo, neoplatonismo e Hermetismo, que foram redescobertos na Europa Ocidental, graças às traduções de um amplo espectro dessas correntes, cujos textos foram trazidos por Pléton desde Bizâncio no período final antes de sua queda." [1] Ora, essas informações parecem imprecisas , com o desconto de que o autor citado obviamente não é um especialista no tema, visto que: 1- Apesar da possibilidade de Gemistos Plethon ter trazido, segundo C. Celenza, algum texto grego para a Itália entre 1438-1439, o fato é que esse processo de obtenção e tradução de manuscritos começou antes e é independente de Plethon. Deve-se citar nesse sentido a iniciativa do literato e chanceler florentino Coluccio Salutati, que, em 1396/1397, ajudou na nomeação de Manuel Crysoloras para a Universidade de Florença, onde se formou um núcleo de estudos da língua e literatura gregas. Além de Crysoloras, é preciso ...