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H. Kelsen sobre o "gnosticismo" em Voegelin

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Hans Kelsen “ A especulação gnóstica, tal como a religião de Mani, se remete à oposição entre os reinos do bem e do mal, da luz e das sombras, do mundo espiritual e do material. Em princípio, é o mesmo dualismo que o das esferas espiritual e temporal aceito na doutrina da Igreja medieval, com a diferença de que a especulação gnóstico-maniqueísta mostrava uma tendência tão forte a identificar a esfera material da vida humana quase por completo com o reino do mal, e a opô-la em grau tão radical com o espiritual – a única esfera divina em sua concepção -, que essa esfera material podia ser considerada, de alguma maneira, desdivinizada. Se o movimento questionado é o que na história da religião em geral se denomina de gnosticismo, seu propósito é justamente o contrário do que Voegelin atribui ao que ele chama de gnosticismo. O gnosticismo histórico não divinizava senão melhor [dizendo] desdivinizava, por suposto não o mundo ou a sociedade, senão a esfera material da vida humana. Ainda que ...

O "combate pela Alma do Mundo" (por Daniel Placido)

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Como disse F. Lenoir, a modernidade filosófica e científica transformou a natureza em um todo reduzido à relações mecânicas, de partes justapostas e apreendidas de forma racional e matematizada, rejeitando a ideia da natureza como um ser dotado de Alma, com relações simpáticas e antipáticas dentro de si, fundamento da magia e da imaginação como mediadora entre os níveis de realidade. Como reação a este processo, teremos a teosofia de Boehme, Swedenborg e outros, além da Filosofia da Natureza romântica de inspiração teosófica (Novalis, Schelling, Schubert), que insistirá em compreender a natureza como um ser orgânico e anímico, um todo em que as partes se relacionam por analogias e correspondências, e considera o próprio homem como um microcosmo à luz do macrocosmo.  Ademais, a modernidade foi marcada pela ascensão do racionalismo filosófico que, entre outras consequências, restringiu o status ontológico da imaginação, confundida com a fantasia (a "louca da casa"), como uma m...

"A História do Diabo": uma leitura gnóstica (por Daniel Placido)

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  Em seu clássico ensaio filosófico “A história do Diabo” (original de 1965), Vilém Flusser (1920-1991), filósofo tcheco-brasileiro, parte de visão teológica aparentemente católica sobre o Diabo e os sete pecados capitais -- gula, luxúria, avareza, orgulho, preguiça, inveja, ira --, para estabelecer uma concepção do assunto que, a meu ver, não só é protobudista   -- e o autor sabidamente era interessado em zen-budismo, por influência de seu amigo A. Bloc --, mas também gnóstica, o que não é de estranhar, pois o livro faz alusões sutis ao maniqueísmo, antiga religião persa, a qual pretendia sintetizar de modo original zoroastrismo, cristianismo gnóstico e budismo. O Diabo (ou melhor, o Demiurgo gnóstico) é o príncipe deste mundo transitório e material, pois Flusser o identifica com a criação, com o tempo, com a historicidade, enfim, com a natureza imanente. Ademais, ele é o tecelão dos fios que capturam o homem em uma rede ilusória, afastando-o (e mesmo ocultando sua existênc...

Quem foram os essênios? (por Daniel Placido)

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  Os essênios foram um grupo sui generis do judaísmo antigo, assim como os fariseus, saduceus e zelotes, o qual se desenvolveu aproximadamente entre os séculos 3-2 AEC e a destruição do segundo Templo de Jerusalém (70 EC), e seu desaparecimento possivelmente está relacionado aos massacres de judeus perpetrados pelos romanos. Os essênios podem ter tido influência sobre os primeiros cristãos, já que João Batista, especula-se, teria sido um essênio ou alguém próximo do movimento. Entre as várias etimologias possíveis para a origem da palavra “essênios”, ela significaria “observadores da Torá”. Enquanto na Palestina e Síria eram conhecidos como “essênios”, no Egito seriam conhecidos como “terapeutas”. Haveria cerca de 4000 essênios espalhados pela região. Sobre as fontes a respeito deles, temos autores antigos como Flávio Josefo, Fílon de Alexandria, Plínio, o velho, além de Hipólito de Roma e Eusébio de Cesareia. Mais recentemente, no século XIX foi descoberto o Documento de Dama...

Docetismo e imaginal em H. Corbin (por Daniel Placido)

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Com base na leitura de C. Jambet ( A lógica dos orientais. SP: Globo, 2006, pp. 294-297), um discípulo do filósofo e orientalista francês Henry Corbin, o docetismo consistia na crença de alguns gnósticos antigos, assim como dos maniqueus e dos cátaros, de que Jesus não teve um corpo carnal comum, porquanto ele seria dotado de uma espécie de corpo fantasmático, espiritual ou angélico e que, portanto, sua Paixão na cruz não foi algo “real” tampouco “doloroso”. Na melhor das hipóteses, foi um teatro. Justamente nesse aspecto a heresiologia católica vislumbrou no docetismo gnóstico uma negação radical e inaceitável do sofrimento redentor de Cristo assim como uma rejeição de sua natureza realmente humana-corpórea-mortal, insistindo, contra ele, na centralidade histórico-teológica da Paixão crística e da co-humanidade de Jesus. Crucifixion (Corpus Hypercubus)  (1954), de Salvador Dalí Contudo, existem sutilezas nessa discussão sobre o docetismo, e o pensamento de H. Corbin, exposto por ...

Em memória de António de Macedo (por Daniel Placido)

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António de Macedo nasceu no dia 5 de julho de 1931, em  Lisboa, Portugal, e faleceu na mesma cidade em 5 de outubro de 2017. Ele foi cineasta, esteta, ensaísta, romancista, professor de Esoterologia Bíblica (Universidade Nova de Lisboa),  além de membro da Fraternidade Rosacruz Max Heindel. Em todas essas áreas e especialidades conquistou destaque, obtendo por seu trabalho um reconhecimento internacional. Aqui falaremos apenas da sua faceta enquanto estudioso das religiões e tradições. Por “estudo do Esoterismo” (=Esoterologia), hoje se entende a disciplina acadêmica surgida há alguns decênios em universidades importantes tais como Sorbonne (França), Estadual de Michigan (EUA), Amsterdam (Holanda), Londres (Inglaterra), Turim (Itália) e outras, à luz de uma reaproximação entre o mundo dos esoteristas, de um lado, e o mundo acadêmico, do outro, o que não ocorria praticamente desde Ficino e o Renascimento. Reaproximação esta fundada em sutis distinções metodológicas e epistemoló...

Filosofia Perene, Renascimento e sincretismo (por Daniel Placido)

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  O Renascimento foi um momento decisivo para a formulação da Filosofia Perene pois era um lugar de encontro sincrético   de diversas tradições com o cristianismo, como o hermetismo, o neoplatonismo, a cabalá judaica, o orfismo etc.   Nesse quadro, tem peso especial Gemistos Plethon, um filósofo neopagão de origem bizantina que chamou a atenção dos latinos para o valor de Platão e que este estava de acordo com Zoroastro, o primeiro sábio e legislador antigo.  Na esteira de Plethon, mas mobilizado pela ótica cristã, temos Ficino, que traduziu o Corpus Hermeticum e começa a falar de prisca theologia , colocando Hermes Trismegisto como primeiro teólogo mais antigo. Hermes Trismegisto já era fruto de um certo sincretismo, uma mistura do Hermes grego com o Thot egípcio, um sábio ou profeta pagão que já era discutido por antigos como Lactâncio, Cícero e Agostinho. No período do Renascimento, curiosamente, sua imagem podia ser encontrada dentro de uma igreja católica, mais...